Sem lenço, sem documento


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Fomos ao teatro assistir Canções de Protesto. Passeando pela nossa história, desde a década de 1920, o escritor e pesquisador Ney Vilela apresenta letras, músicas e compositores brasileiros fazendo um paralelo entre suas obras e o contexto sócio- político vigente, executadas pelo músico Rogério Bastos.

Geraldo Vandré, Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano, Gil e vários outros precisaram burlar a censura para se fazerem ouvir .Magnífico! Quanto maior a censura, parece ser também maior a capacidade de criação.

Cantando lembrei-me das serenatas. Ah, que delícia... Um sinal na janela anunciava que ali, por algum tempo, o amor seria cantado ao som do violão; e também que diante de tantas mulheres você era a escolhida para receber os elogios.

Nós, mulheres de minha geração, fomos muitas vezes agraciadas com essa surpresa no meio da madrugada. A serenata já salvou vários relacionamentos, pois amolecia nosso coração. E aí discussão e desconfiança eram deixadas de lado.

Lembro-me de um dia, já namorando o Paulo, em que cheguei em casa confusa e brava com alguma situação embaraçosa do namoro. Dormindo, ouvi uma pedra batendo em minha janela, um cochicho no muro, um violão... e a música Lágrimas de amor, do Beto Guedes, começou a ser cantada lá fora, nas vozes do Paulo, do Lee Balieiro e do Tunico. Meu pai corre para meu quarto, acende e apaga a luz repetidamente, essa era a senha de boas-vindas aos cantores. No repertório escolhido desfilam clássicos românticos: Travessia, Quando Te Vi, Todo Azul do Mar, Todo Mês de Maio na Maior, etc..Para arrematar a noite memorável, eu e meu pai, que curtia tudo isso, ouvimos de um dos cantantes, um pouco alterado por alguns “drinks”, o seguinte comentário: “Tunico, canta uma do Nelson Gonçalves, que o sogro gosta!”. A Volta do Boêmio foi dedicada ao meu pai.

Nas serenatas, ao contrário do cenário exposto por Ney Vilela; Chico, Milton, Caetano colocavam seu monstruoso talento a serviço do amor. Suas maravilhosas canções conspiravam pela reconciliação dos enamorados. No meu caso funcionou, o cantante com a voz alterada naquela noite seria meu futuro marido.

Final de espetáculo, fim das lembranças, e as canções de protestos e serenatas vão repousar na memória afetiva de cada um. Entre aplausos que coroavam esta gostosa noite, olho para minha filha e pergunto: “Daqui a 20 anos, qual a música que você vai cantar e qual vai contar uma história?” Ela ri, pensa na provocação,responde com uma certa ironia
–... a da bicicletinha mãe, que fala assim: .. “uma mão vai no guidão e a outra tampando a calcinha”.

Rimos e voltamos para o mundo... sem lenço, sem documento.



 

Heloisa Bittar Gimenes é psicóloga

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