Tecendo desejos...


| Tempo de leitura: 3 min
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.”
Marina Colasanti


A Moça Tecelã, conto de Marina Colasanti, nos leva a navegar por caminhos conhecidos, mas nem por isso compreensíveis.

A história nos fala sobre uma moça que era capaz de tecer no seu tear tudo de que ela necessitava: se queria ver o sol, tecia o sol; se tinha fome, tecia um peixe; se desejava a chuva, logo a tecia e esta já vinha bater em sua janela. Um dia, sentindo-se sozinha, decidiu tecer um marido. Um belo homem surgiu da habilidade de suas linhas e por algum tempo foram felizes, até o dia em que esse homem descobriu o poder do tear e passou a pedir-lhe coisas: primeiro quis uma casa maior, depois pediu um palácio, depois as estrebarias, os cavalos e as carruagens, depois achou que era preciso muitos empregados e então a moça passou a tecer sem parar para atender aos caprichos do esposo. Com o tempo percebeu que não via mais o sol e que quando a noite chegava, ela não tinha mais tempo para tecer as estrelas. Uma dia, enquanto o marido dormia, sonhando com novas exigências, ela sentou-se ao tear e com a segurança de quem sabe o que quer, foi destecendo tudo: primeiro foram os jardins, depois os cavalos, as carruagens, os empregados e finalmente, começando pelas botas, ela desteceu o homem que era o seu marido. Então voltou a pegar a linha dourada para tecer o sol que já vinha nascendo.

Esse conto sempre me encantou, pois com a beleza da linguagem, Marina Colasanti vai tecendo, junto com o leitor, uma profunda reflexão que não necessita de palavras filosóficas, mas que nos conduz a certezas internas, muitas vezes sabidas, mas nem sempre assumidas. As nossas verdades, quase todas têm dupla face e por isso mesmo nos confundem. O que queremos hoje, com tanta força, amanhã, talvez, já estaremos arrependidos e descobriremos que o melhor era ser como antes. Ou então lamentamos aquilo que não ainda temos, mas nem sempre nos dispomos a lutar, ou nos empenhar para ter. Ficamos na dúvida: e se não for tão bom assim como eu sonhei?

Nesse início de ano novo tecemos muitos desejos, fizemos muitas promessas e hoje, antes mesmo de terminar o primeiro mês do ano, já engavetamos quase todas e voltamos ao nosso antigo modo de ser. E com isso não estou dizendo que isso não é bom. Talvez, alguns desejos devam mesmo ficar apenas no sonho, pois podem ser tão perigosos que corremos o risco de ter que destecê-los, como fez a moça da história. No entanto, outros merecem ter vida, precisam de pilhas, necessitam de uma agulha e linha para serem tecidos ponto a ponto...

O nosso conflito se instala justamente aí. Em primeiro lugar saber o que devemos tecer; depois ter a exata percepção de que estamos tecendo, realmente, os nossos desejos e não desejos impostos por outros. E, finalmente, se teremos força e coragem para destecer tudo aquilo que nos faz mal e não nos traz vida.
A sabedoria da moça tecelã é que eu desejo para mim.



 

Jane Mahalen do Amaral Membro da Academia Francana de Letras

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