Incêndio


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Incêndios não são novidade em minha vida. Da janela do apartamento e república de estudantes que vivia em São Paulo, no bairro de Santa Cecília, assisti incrédulo, horrorizado e atônito o incêndio do edifício Andraus, que matou centenas de pessoas. Foi a partir daquele incêndio, logo seguido pelo do Joelma, que finalmente governantes e empreendedores criaram juízo e começaram a exigir e fazer cumprir as normas do Corpo de Bombeiros para prevenção e segurança contra pânico e incêndios nos edifícios.

Assisti outro incêndio, o primeiro irradiado da história. Aconteceu num comício para a eleição a prefeito de Franca, no Jardim Aeroporto. O candidato e o séquito de candidatos a vereador à sua volta discursavam, dançavam e cantavam jingles empoleirados num grande caminhão, enquanto na parte de baixo passeavam casais de namorados, velhos descrentes, alguns crentes, cachorros, crianças descabeladas correndo sem parar e gritando mais alto que os políticos no caminhão. E, claro, aquelas presenças infalíveis nestes momentos cruciais da democracia brasileira: o bêbado de plantão e o vendedor de pipocas.

O termômetro para o sucesso de qualquer evento é a presença de um pipoqueiro e bêbados. Não sei como eles conseguem avaliar e decidir tão rapidamente, nem como conseguem informações que o mais preparado instituto de pesquisas não detecta. O pipoqueiro, não, ele intuí e lá está, onipresente onde há aglomeração popular. Para o bêbado é mais fácil, ele apenas termina o que havia começado no boteco da esquina.

No comício havia também um vendedor de pinga. Pinga no bambu. Nunca havia visto aquilo na vida. O sujeito cortava os gomos do bambu e enchia de caninha. Literalmente, vendia como água, embora daquela que passarinho não bebe. Até o momento que o carrinho do pipoqueiro pegou fogo. O candidato a prefeito, encarapitado no caminhão e com o microfone na mão, percebeu o perigo do incêndio e começou a irradiar: “olha, o carrinho do pipoqueiro está pegando fogo, afastem-se, cuidado com o gás”, ele foi falando para as pessoas se afastarem, enquanto o pipoqueiro desesperado não sabia o que fazer, o que havia para apagar o fogo era a pinga vendida no bambu.

Alguém jogou um líquido no carrinho. Ao invés de diminuir, o fogo alçou mais alto ainda, no meio de um furdúncio só, mulheres gritando com seus pirralhos, os cachorros ganindo, os moleques alvoroçados esperando a coisa explodir. Mas não explodiu. O fogo murchou como o comício, que acabou na hora, deixando esturricado o carrinho. O candidato, reeleito pelo povo, deu um carrinho novo para o pipoqueiro. Era um tempo que o prefeito tinha bom coração e não se importava com gritos na feira livre e cones na rua, tempos de democracia e participação popular, valores bem mais importantes e benéficos que a arrogância e o autoritarismo.



 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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