Para onde vamos?


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Houve aquele tempo...
(e agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)
Guilherme de Almeida


É próprio do humano, especificamente humano, reconhecer (sentir e pensar) a partir das impressões recebidas através dos órgãos dos sentidos. Parece que é preciso viver na pele a mesma experiência do outro para haver sintonia e aceitação.

Sermão pronto, palavras feitas, jargões teóricos vazios dão a medida do quão distante pode se estar uma pessoa da outra, quando não há uma experiência emocional compartilhada.

Alguns escapam da estreita visão de “o que se recebe se dá”, da lei de Talião (“olho por olho, dente por dente”) e conseguem desenvolver empatia, solidariedade. A dor, que não a própria, é descartável, há tendência humana a ignorar, a depreciar “o que não é espelho” (C.Veloso).

Alguns, por lucidez, amor próprio, orgulho ou/e timidez, sabem intuitivamente da tendência humana de descaso pela “dor alheia” e se recolhem, a sós com a dor que é sua. De certo modo mostram um senso de realidade. Há uma espécie de convenção social, um tipo de “bom tom”, que espera que sejamos corteses, felizes, disponíveis, sem oscilações de humor, uma espécie de robô que funciona bem, atendendo a todos os “botões” acionados.

Uma psicanalista, Joyce Mc Dougall, em seu interessante livro Uma certa defesa da anormalidade, inventa um nome para este tipo de personalidade que segue a convenção social do “bom tom”. Ela denomina de personalidade “normótica” aquela pessoa obcecada por ser “normal”, e que não questiona aquilo que a aprisiona dentro das próprias normas.

Afinal, o que é “ser normal”? Seguir as normas convencionadas socialmente, e estar catalogado na estatística, dentro do que a maioria faz.

Mas como ser “normal” em um mundo em que as circunstâncias podem ferir uns e outros de maneira desigual?

Colocando baldes em todas as goteiras que surgiram em casa, de ontem para hoje, depois de chuva que vem do céu “de balde”, vejo como me impressionou a imagem de uma mulher que vi na TV, no noticiário de ontem, desesperada, descabelada, olhos esbugalhados.

Ela perdeu seu teto, a enchente não respeitou seu canto, não sabe a quem recorrer, todos os seus bens estão no lixo, e grita para a câmera que registra seu sofrimento - o que fiz, o que vou fazer, para onde vou?

Definitivamente isso não é algo que possa deixar tudo “normal”. Nem em mim, e nem, imagino, em ninguém, nem pessoal, nem socialmente. Para onde aquela mulher vai, algo em mim vai com ela, afunda na mesma lama.



 

Maria Luiza Salomão é psicóloga, do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e membro da Academia Francana de Letras

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