Marias


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- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Manuel Bandeira,
in Irene no Céu


Na minha vida, conheci poucas Irenes, mas muitas Marias. Algumas sós, outras de mãos dadas com Elisas, Sílvias, Auroras... Outras, ainda, ligadas, não diretamente, mas por meio de pequenos laços - simples elos gramaticais - a Lurdes, Graças, Fátimas...

E perdi, na minha vida, Marias que me fizeram (e ainda me fazem) tanta falta.

A primeira Maria que conheci foi a que me apresentou à luz, depois de um tempo de íntimo compartilhamento de penumbra, calor e vida. Foi a que me mostrou as doçuras e suavidades deste mundo, e me protegeu de seus amargores e asperezas; a que me consolidou o corpo e consolou a alma, e me alimentou corpo e alma; a que me ensinou, sempre - até sorver a última fração de ar e escoar o último minuto que a ela couberam, neste mesmo belo e doce e áspero e amargo mundo - a ver, amar e respeitar os mistérios e as belezas da vida. Com ela, aprendi o significado da palavra AMOR, em toda a sua amplitude: da proteção à liberdade; da doação à responsabilidade. Com ela, vivi mil experiências de alegria, e uma de dor, imensurável, indizível, única: a do irreversível contido na palavra morte.

Na última segunda-feira, foi-se outra Maria, que conheci e aprendi a admirar: a Dona Maria vizinha, a Dona Maria do lado. Maria que apresentou à luz do mundo oito vidas, tendo partilhado, com cada uma delas, a penumbra e o calor de um íntimo e líquido ninho. Acolheu-as, alimentou-as, corpo e alma, e com elas comungou dores e delícias. A elas ensinou o real significado da palavra AMOR - que demonstraram ter aprendido, e muito bem. Essa abençoada Maria viveu cercada do carinho das vidas que trouxe à luz, e de outras tantas vidas, por elas escolhidas e amadas; e de muitas mais, geradas e multiplicadas a partir de suas sementes; vidas a que igualmente amou e abençoou.

Foi-se outra Maria-Amor-Exemplo.

Imagino, então, essas Marias tão puras quanto a Irene de Bandeira. E sua entrada no Céu tão simples, natural e inquestionável quanto o seu Amor.



 

Eny Miranda Médica e poeta

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