Estrada de terra batida, por aqui passava de tudo. Boiadas, cavaleiros, carros e caminhões, comitivas e suas tropas, andarilhos. Um traçado longo e poeirento. Crianças, entre elas eu, brincávamos em suas encostas e nos perdíamos entre suas poeiras. Nossa casa fora construída bem ali na curva da estrada. Eu em minha inocência ficava imaginando para onde as pessoas que por ali passavam poderiam estar indo. Eram tempos muito difíceis para todos nós. As pessoas que por ali moravam eram pobres e isto se refletia em suas crianças. Pés no chão, roupas rasgadas. O que chamava a atenção era o espírito solidário daquele povo que se ajudava mutuamente. Recordo-me de diversas pessoas que vivam ali por perto : Seu José Ignácio, Dona Maria Costa, César do Belo, Jandira e Dona Olinda, minha avó.
Seu José Ignácio morava em uma casa bem simples. Piso de chão duro, poucos móveis e um sorriso enorme nos lábios, violão afinadíssimo, sempre a encantar as visitas. Era viúvo e pai de três filhos: Timóteo, João Carlos e Afrânio. Dona Maria Costa era uma senhora muito misteriosa e para nós crianças um tanto quanto assustadora, pois imaginávamos e inventávamos inúmeras histórias sobre a velha. Isto colaborava imensamente para aumentar a distância entre a rua e sua casa e nossos jogos de futebol nos finais de semana e férias escolares. A verdade era que dona Maria esperava todos os dias que seus filhos, que moravam em Piracicaba, viessem buscá-la e a tirassem dali. Vivia numa pobreza terrível e minha avó sempre a ajudava.
A única fonte de renda que havia era a lavoura.Todas as pessoas dependiam diretamente ou indiretamente desta atividade. Posteriormente as grandes fazendas passaram pelo processo de mecanização e isso fez com que as pessoas perdessem seus empregos e se deslocasem para outras regiões em busca de empregos. Os filhos de seu José Ignácio foram para Franca e se tornaram sapateiros; posteriormente empresários do setor, que era sobrinho de Jandira, também se mudou e levou junto sua tia.
Um belo sábado, alguém bate palmas, eu saio e ele pergunta:
-Você conhece uma senhora que se chama Maria e é conhecida como Maria Costa?
Digo sim e indico a casa da velha. Eram seus filhos que tinham vindo buscá-la.
Dos antigos vizinhos restaram apenas poucos. Era uma estrada boiadeira. Ali viviam muitas pessoas, inclusive eu. O violão de seu José Ignácio certo dia calou-se para sempre. A minha avó foi requisitada ao céu. E eu começava a conhecer a minha própria estrada que foi o início de tudo.
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Paulo Maestri Professor |
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