Paraíba


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Fui conhecer a Paraíba. Minhas preparações nas viagens, baseadas na arquitetura, são sempre surpreendentes, algumas vezes me estrepo todo. Escolho restaurantes pela arquitetura e de vez em quando a comida é cara e ruim. Com os hotéis, acontece a mesma coisa, nem sempre a beleza é confortável. Em João Pessoa, no entanto, acertei em cheio, fiquei no hotel Tropical Tambaú, um projeto do grande arquiteto carioca Sérgio Bernardes, injustamente identificado com a ditadura. É um hotel antigo e simples, criado para o incipiente turismo de massas dos anos 70, mas sua concepção continua revolucionária. Localizado literalmente à beira do mar, em local paradisíaco, à noite em suas redes, os hóspedes podem ver e ouvir a arrebentação do mar em suas paredes.

A viagem de ônibus para São Paulo, escala obrigatória para o vôo, teve uma coincidência sonora. Já viajei pela Cometa com o Betinho Eliezer conversando sobre Beatles e música algumas vezes, num passado remoto. Mas ultimamente, sempre que entro no ônibus, quem está deitado na última poltrona ronronando acordes é o músico Diego Figueiredo, um dos grandes jovens talentos da música local. Ele vai nos braços de Morfeu até Sampa, direto, sem descer na arapuca do Graal, que dispõe os doces e guloseimas no caminho do caixa, resistir quem há de? Ele só acorda na marginal do Tietê e desaparece rapidamente na multidão da rodoviária, certamente em busca da criação de belos sons, bem mais agradáveis que o ruído incessante da metrópole selvagem.

Ainda assim, prefiro respirar óleo diesel que o tal ar condicionado ecológico repleto de ácaros do ônibus, do aeroporto, do avião, do apartamento do hotel, acabo com a garganta em chamas. No caminho, seis penosas horas num trânsito infernal, vou revendo as cidades e percebendo como cresceram. Todas, sem exceção. Batatais, Brodowiski, até Cravinhos, com seus extensos conjuntos habitacionais, verifico a total substituição do café pela cana. A estação ferroviária da Mogiana já é passado, restaram os treminhões às dezenas, cana a perder de vista. Lá, vi algo que me trouxe lembranças deste passado. As obras de demolição de um antigo posto de gasolina às margens da rodovia.

Lembrei que foi ali que ficamos em 1966, quando a DKW-Vemag nova do meu pai apresentou um problema no motor, quando íamos para Poços de Caldas em férias. Não havia peças de reposição na cidade. Meu irmão pegou carona com um caminhoneiro para Ribeirão Preto, comprou a peça e voltou de ônibus para o mecânico consertar. Ficamos lá parados horas e horas, sem ter o que fazer, andando para lá e para cá, comendo pés-de-moleque à espera da solução. O implacável progresso o destruiu, mas ficou a lembrança de um tempo que escorria mais lento, onde as coisas podiam ser resolvidas mais calmamente e sem a correria desatinada de hoje. Da Paraíba mesmo, não falei nada, a praia de nudismo fica para outra vez.



 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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