Hoje ela está especialmente sensível, e seu coração, em momento de despedida, é acolhido por palavras irmãs, que vão brotando da tela e se aninhando na alma.
O texto, a ela enviado por uma grande amiga, fala de olhos em momento de descoberta; de olhos puros, ansiosos, inquietos, muito abertos para a beleza “clara e simples da Criação”. Fala de um jovem sensível que vive o encantamento de seus breves 18 anos. E fala também de saudade, quando ele se vai.
Ela o lê e teme que esse jovem cresça - mas sabe que ele crescerá, inevitavelmente, ele crescerá - e descubra no mundo uma beleza menos simples e menos clara; aprenda que, às vezes, é preciso diminuir a abertura desses olhos puros e inquietos, para sobreviver.
Lê o texto e seus olhos se abrem a muitas águas. Especialmente hoje, vê nesse jovem alguém muito amado; um menino que se lançava, destemido, a voos aprendizes; que viajava de bicicleta, a pé, de carro, de carona, a nado... para alcançar praias desertas cobertas de dunas, com o objetivo único de se deitar na areia e ver as estrelas, ou a Lua, ao som do mar; e de ver, no outro dia, o sol chegando, também ao som e, então, ao azul e ao sal do mar.
Vê o menino que mergulhava com o irmão, depois de enfrentar, a nado, e vencer, distâncias enormes, para desfrutar o silêncio vivo, as cores e os mistérios de um incrível mundo submerso.
Vê, agora, longe no tempo, seus olhos brilhando diante dos dela, a lhe contarem suas experiências, a lhe dizerem de suas sensações à comunhão de tais belezas, grandezas e mistérios.
- Não, mamãe, você não imagina. É impossível imaginar. É maior do que o poder da imaginação humana. Você tem que estar lá, ver de perto, sentir, viver cada detalhe. E o irmão, acenando que sim, com a cabeça, convidava-a a ir com eles, e ambos a convidavam, insistentemente, a mergulhar e ver os cardumes de mil cores; a experimentar o silêncio, a paz indizível, inimaginável, que tais aventuras proporcionavam.
Mas ela não ia. Ela nunca foi. Adulta, olhos abertos para pré-e-ocupações várias, o trabalho, a casa, um milhão de livros, fechados ainda, à sua espera, dizia: Não posso, eu não sei nadar.
Eles a guiariam, e a protegeriam das armadilhas marinhas, afirmavam; mas adiava essa experiência, julgando que a vida não fosse o sopro que é. Não imaginava (isso ela não imaginava!) que um dia - o tempo passa, sempre passa - asas crescem de verdade (e como é rápido esse crescimento!), e os voos dos filhos se fazem realmente impossíveis de serem acompanhados.
Um dia, eles se vão. Olhos menos abertos para o branco macio, luminoso, das dunas; para os céus vazados em bilhões de lumes; para os amanheceres ao azul atlântico, líquido e rumoroso, que, uma vez desnudado nas entranhas, surge silencioso e multicolorido; e para os convites insistentes (conhecem já as limitações impostas pelo tempo).
Um dia, eles se vão. Olhos muito abertos para a dura beleza da sobrevivência, que nem sempre admite dunas e luas e mares e mundos submersos. Vão-se com olhos inquietos, ansiosos, voltados para complexas criações humanas.
O metafórico jovem do texto trouxe-lhe muitas lembranças, um fechar de cansados olhos adultos, e um desejo de resgate - agora, beirando o impossível - de abertura de novos olhos em tempos idos. Trouxe-lhe a consciência de outro voo, este, seu, e em sentido oposto ao dos voos transatlânticos do filho; ao do voo que ele empreenderá, em poucos dias, para fixar experientes raízes em terras banhadas por outros mares. Trouxe-lhe asas para partir “à la recherche du temps perdu”.
O texto, a ela enviado por uma grande amiga, fala de olhos em momento de descoberta; de olhos puros, ansiosos, inquietos, muito abertos para a beleza “clara e simples da Criação”. Fala de um jovem sensível que vive o encantamento de seus breves 18 anos. E fala também de saudade, quando ele se vai.
Ela o lê e teme que esse jovem cresça - mas sabe que ele crescerá, inevitavelmente, ele crescerá - e descubra no mundo uma beleza menos simples e menos clara; aprenda que, às vezes, é preciso diminuir a abertura desses olhos puros e inquietos, para sobreviver.
Lê o texto e seus olhos se abrem a muitas águas. Especialmente hoje, vê nesse jovem alguém muito amado; um menino que se lançava, destemido, a voos aprendizes; que viajava de bicicleta, a pé, de carro, de carona, a nado... para alcançar praias desertas cobertas de dunas, com o objetivo único de se deitar na areia e ver as estrelas, ou a Lua, ao som do mar; e de ver, no outro dia, o sol chegando, também ao som e, então, ao azul e ao sal do mar.
Vê o menino que mergulhava com o irmão, depois de enfrentar, a nado, e vencer, distâncias enormes, para desfrutar o silêncio vivo, as cores e os mistérios de um incrível mundo submerso.
Vê, agora, longe no tempo, seus olhos brilhando diante dos dela, a lhe contarem suas experiências, a lhe dizerem de suas sensações à comunhão de tais belezas, grandezas e mistérios.
- Não, mamãe, você não imagina. É impossível imaginar. É maior do que o poder da imaginação humana. Você tem que estar lá, ver de perto, sentir, viver cada detalhe. E o irmão, acenando que sim, com a cabeça, convidava-a a ir com eles, e ambos a convidavam, insistentemente, a mergulhar e ver os cardumes de mil cores; a experimentar o silêncio, a paz indizível, inimaginável, que tais aventuras proporcionavam.
Mas ela não ia. Ela nunca foi. Adulta, olhos abertos para pré-e-ocupações várias, o trabalho, a casa, um milhão de livros, fechados ainda, à sua espera, dizia: Não posso, eu não sei nadar.
Eles a guiariam, e a protegeriam das armadilhas marinhas, afirmavam; mas adiava essa experiência, julgando que a vida não fosse o sopro que é. Não imaginava (isso ela não imaginava!) que um dia - o tempo passa, sempre passa - asas crescem de verdade (e como é rápido esse crescimento!), e os voos dos filhos se fazem realmente impossíveis de serem acompanhados.
Um dia, eles se vão. Olhos menos abertos para o branco macio, luminoso, das dunas; para os céus vazados em bilhões de lumes; para os amanheceres ao azul atlântico, líquido e rumoroso, que, uma vez desnudado nas entranhas, surge silencioso e multicolorido; e para os convites insistentes (conhecem já as limitações impostas pelo tempo).
Um dia, eles se vão. Olhos muito abertos para a dura beleza da sobrevivência, que nem sempre admite dunas e luas e mares e mundos submersos. Vão-se com olhos inquietos, ansiosos, voltados para complexas criações humanas.
O metafórico jovem do texto trouxe-lhe muitas lembranças, um fechar de cansados olhos adultos, e um desejo de resgate - agora, beirando o impossível - de abertura de novos olhos em tempos idos. Trouxe-lhe a consciência de outro voo, este, seu, e em sentido oposto ao dos voos transatlânticos do filho; ao do voo que ele empreenderá, em poucos dias, para fixar experientes raízes em terras banhadas por outros mares. Trouxe-lhe asas para partir “à la recherche du temps perdu”.
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Eny Miranda Médica e poeta |
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