Favelização foi opção perigosa


| Tempo de leitura: 3 min

Não há como negar: somente as tragédias (que nos últimos tempos estão se sucedendo de forma assustadora) mostram o impressionante grau de incapacidade dos administradores públicos brasileiros de governar desinteressadamente, apenas para beneficiar a comunidade que os elegeu. Os agentes políticos (sejam eles presidente da República, governadores de Estado ou prefeitos) costumam priorizar obras de grande visibilidade em detrimento das estruturais, que às vezes não aparecem acima do solo. Isto vem desde há muito tempo e é uma tradição lastimável. Eleitos acabam se esquecendo dos perigos a que expõem os seus eleitores ao agir tardiamente. De nada vale mostrarem-se indignados com a morte de centenas de pessoas, se nada fazem para reverter a situação de calamidade. Desde o final do ano passado, com as fortes chuvas que assolam vários Estados brasileiros, milhares de pessoas estão desabrigadas e o rastro de destruição ganha o noticiário nacional e internacional.


A jornalista Maria Helena Rodrigues Rubinato de Sousa, que escreve uma excelente coluna no Blog do Noblat (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/), faz uma série de indagações muito pertinentes a respeito. Acompanhando o dia-a-dia do País, depois da tragédia que enlutou o Estado do Rio de Janeiro e mostrou o descaso para com a qualidade de vida do brasileiro, ela faz a pergunta crucial: o que leva um sujeito eleito pelo voto popular a se desligar de tal modo da realidade a ponto de se convencer de que as favelas encarapitadas no alto dos morros são locais apropriados para moradias?


Esta é a pergunta que deveria ter sido feita ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando disse na TV, durante entrevista ao Canal Livre (na TV Bandeirantes), que a moradia no morro da Rocinha é simpática e agradável. Só quem nunca viu uma favela de perto (e a Rocinha é um dos grandes exemplos disso) não se assusta com esta afirmação. Favela só fica bonita em novela da Globo; na vida real, são casas e barracos dependurados em barrancos que deixam qualquer um assustado. Quem vê o panorama pela primeira vez se inquieta, pois tem a impressão de que qualquer pancada fará desabar tudo.


A chuva que causou a tragédia fluminense não foi pequena. O grande volume de água finalmente expôs a precariedade da moradia nas favelas cariocas e niteroienses. A ação que os governantes prometem por ora (a transferência dos moradores das favelas para conjuntos habitacionais longe dos morros) era uma ideia defendida nos idos dos anos 1960 (mais de 40 anos atrás), pela então deputada Sanda Cavalcanti. Ela não foi ouvida e acabou ridicularizada não pelo governador de então, o carismático (e teimoso) Carlos Lacerda, mas também pela própria imprensa - houve até samba que ficou famoso. Na época tinha-se uma visão bastante romântica da vida no morro e o chamado processo de favelização foi defendido com energia pelo secretário Darcy Ribeiro, homem de esquerda do governo Brizola.


Hoje, quando o crime toma conta das comunidades formadas nas encostas de morros, outro grande perigo passa a rondar a gente de bem, sem posses para buscar uma alternativa digna de vida para sua família. As chuvas representam, mais do que nunca, um temor que tem razão para existir. Difícil é saber como se conduzirá o governo para evitar próximas catástrofes.
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários