A culpa


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I
Não falarei de mim. Nem dela. Inconseqüente e inconsistente seria.
Os minutos passam. Já é noite. Estou nesta sala e não cometi crime. Não que me recorde. Dela recordo. Olhos negros, cabelos negros. O mais pouco importa. Os livros nada me dizem e a vida passa. Irremediavelmente. Irremediabilidade única. Nada premeditei e nem premeditaria. Ela sempre ela quem me questiona.
Este o fato, bem evidente neste exato momento. A noite se alonga e consigo o silêncio lá fora.

II
– Você foi o culpado.
– Jamais.
– Não se faça de tolo.
– Não me atormente.
– Olhe para mim.
– Não importa.
– Importa, sim.
– O que importa verá.

III
– Ela não merecia.
– De quem está falando?
– Da loura de vestido azul.
– Ah.
– Você é mau.
– Afaste de mim esses cabelos negros, esses olhos negros.

IV
O mar é bonito. Valsarei ouvindo as ondas quebrarem na praia. E alguém filmará. Uma tomada apenas. Uma cena. E as ondas deixarão a espuma na areia. Recuarão, mortas. Cabeleiras fugidias, louras...

– Não, não. Cabelos negros, olhos negros. Engano-me.
– Falando sozinho?
– Espairecendo. Não me atormente.
– Então olhe ali.
– O quê?
– Aquela gaivota.
– Melhor cantar.
– Cantar o que se ela já se foi?
– Se foi ou irá?
– Você, hem?
– Esquece. Esquece tudo.

V
Mas o esquecimento é atroz. Esqueci de ler Kant, Marx, Goethe, Tomás de Aquino, Dante, Villon, Sheakspeare, Mallarmé, Quiroga, Lorca, Maomé, Confúcio, Checov, Leão XIII, Trotsky, Gregório de Matos, Machado de Assis, Walt Whitman, Borges, Capote, Mário de Andrade, os concretistas e as revistas pornográficas. Esqueci de ouvir Beethoven, Tchaikoviski, Amadeus, Carlos Gomes, Francisco Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas, Bing Crosby, Frank Sinatra, Gardel, Presley, o rei do baião, a bossa nova, a tropicália, o axé, os cantadores de viola... Esqueci, inclusive, de ouvir o velho realejo, que não existe mais.
E ela também não mais existe ou não há de existir. Em nenhuma das hipóteses: loura de vestido azul; cabelos negros, olhos negros...
– E você foi o culpado.
– Sempre o mesmo refrão.

VI
Ela olhou as nuvens negras, falou em chuva, poluição, calota polar, desmatamento, camada de ozônio... Falou tanto, tanto, que lhe tapei a boca:
– Para.
Tossiu, olhou-me fuzilante:
– Você não tem remorso?
– De quê?
– Ora de quê...
– Não sei de nada.
– Meu Deus, meu Deus.
– Você é quem vai se arrepender.
– De quê?
– Verá.

VII
Se Erasmo de Roterdam, se ele... Se Tomás Morus, se ele... Se os carneiros medievais parassem de pastar... Se os templários continuassem a vender lascas da cruz de Cristo... Se Henrique VIII, até ele... Se a “peste negra” tivesse levado consigo Petrarca e Boccácio... Se Voltaire... Se Rousseau, se ele... Se Robespierre, a caminho da guilhotina... Se Lutero, além dele... Se as caravelas cabralinas... Se o barbeiro ali da esquina... O que eu teria com os acertos e desconcertos deste mundo se não falarei de mim? Então é me socorrer do Adamastor, que sozinho tudo cessarei e me levantarei, liberto da dualidade: loura de vestido azul ou de cabelos negros e olhos negros.
– Não importa mesmo, hem?
– Claro que não.
– Um dia chegará, porque é culpado.
– Chegará. E você não perde por esperar.

VIII
Lá vai ela, cabelos louros e vestido azul. Vai com o vento, suavemente, perdendo-se no infinito.
É que a verdade não está nessa visão fugidia. Toda a evicência desloca-se para os cabelos negros e os olhos negros.
– Duvido.
– Pois fique certa disto.

IX
Eis que o mar é muito mais bonito. E não vou falar da minha vida. Valsar é a solução.
– Mas você foi culpado, sim.
– Jamais. Lembra-se desta valsa?
Valsa triste, velha valsa,
Das serestas, nas noites de lua...
– Nunca ouvi.
– Então olhe ali o bonde.
– Não existe mais bonde. Há anos.
– Ah. É um pobre velho puxando uma miserável carroça. Como dizia Noel Rosa:
E o bonde, que parece uma carroça,
Coisa nossa, muito nossa.
– Coitado do velho e coitada da carroça.
– Será que ela vai lá, na carroça?
– Quem?
– Ora quem...
– Continua o peso na consciência, hem?

X
– Veja na internet.
– O quê?
– Os desconsertos do mundo.
– Para quê?
– Talvez encontre.
– O culpado?
– Quem sabe? Eu não fui.
– A eterna preocupação. É o remorso.

XI
Suspiro longamente. Não vou falar da minha vida. Dela talvez fale. Talvez. Agora que ela se foi.
Examino-a detidamente amortalhada e tiro a prova:
– Veja:
Dispo-lhe tudo, inclusive o vestido azul e a peruca loura.
– Aí está você. Examine-se. Os cabelos negros, os olhos negros. E não vou fechá-los. Veja você, aí deitada, sem vida, e cobrindo-me de culpa. Vou chamar todos os sábios, teólogos e cafajestes de todos os tempos para que comprovem e testemunhem. Você, que sempre me acusou, pagou, juro, pelo que fez. E agora merecidamente está se desfazendo em nada e transportada para o eterno adeus. De nada adiantou o disfarce.
Valso à beira do mar, sozinho, liberto, cantando para um coro de anjos ou de demônios. E rio à toa, que é o melhor dos risos.
E me unirei à que surgir das ondas. Fusão total, que nos levará aos tempos idos e que virão. E darei de ombros à voz que não é mais.

XII
Não falarei de mim. Nem dela. Inconsequente e inconsistente seria.
Os minutos passam. A noite se vai e vem o dia. A sala se ilumina, amplia-se em dimensão cósmica.
Exausto da posse total, totalizante, esfuziante, universal, universalizante, abraçados, em órbita, sorrio feliz.
– Culpado? Nunca!



 

Caio Porfírio Carneiro Escritor e crítico literário

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