Tarde de domingo


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Para alguns um problema. Para mim, os pombos voando em revoada representavam naquela tarde modorrenta de domingo só beleza singela.
– Olhe só, Lu, quantos pombinhos para você correr atrás.

O menininho loiro que estava em cima da concha acústica estendeu os bracinhos e abriu um largo sorriso. O pai logo o colocou no chão e ele dava gritinhos de prazer quando as aves alçavam voo.

De repente, a criança estacou. Um choro quebrou aquela brincadeira feliz. — —Mamãe.

A mãe correu ao seu encontro. Notei que havia acontecido algum desarranjo. O menino se recusava a andar e a mulher dizia:
– Vamos, você tem que andar agora

E para o marido:
– Será que tem um banheiro na farmácia?

Pensei na figura importante da mãe e recordei os meus pequenos que também gritavam por mim nas horas de aflição.

Hoje, homens feitos, são ainda meus garotos. Não faz tempo, assistia TV na sala e ouvi o mesmo grito vindo do quarto. Como aquela mãe, corri também e deparei-me com uma figura pálida, tremendo, com os pés gelados sem qualquer motivo aparente. Com o coração sobressaltado, envolvi-o em meus braços sem atinar que atitude tomar, aqueci-o com meu próprio corpo. Passou, passamos...

O tempo modifica nosso corpo e, às vezes, nossa alma. Mas não deixamos de procurar colo em momentos difíceis. Hoje, talvez, esteja um pouco embaralhado: quem faz o papel de quem? Só sei que o amor permeia essas relações e, humanos que somos, estamos sempre necessitando de acolhimento ou oferecendo refúgio. Nem tudo é desolação, somos todos filhos, hoje você... amanhã, eu...

Corra, Lu, corra atrás dos pombinhos... Tomara que existam sempre braços acolhedores como os de ‘mamãe’ para você. Hoje você... Amanhã ela...



 

Marina Garcia Garcia Pedagoga e professora de Português

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