"É o horror!"


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UM REPÓRTER trouxe para mostrar à apresentadora do Studio i da GNT um biscoito de barro, feito de terra e água, seco ao sol, sem outro ingrediente, vendido nas ruas do Haiti.

Vendido. Sem qualquer valor nutritivo, e, pior, passível de ser venenoso, contaminado pela água de esgotos, etc.

Isso mostra a que grau de miséria um ser humano pode chegar, miséria também econômica mas fundamentalmente emocional e espiritual. Embutido neste biscoito de barro a ignorância, a exploração de quem o faz. Embutido em quem come o biscoito o desleixo, o “ódio ao esforço”, a incapacidade de se mover, pensar, uma falta de perspectiva quanto aos próprios recursos e capacidades que talvez não se observe em outro ser vivo na natureza, nem em um animal ferido, entregue à própria sorte. Nem em uma planta que processa sua fotossíntese com o mínimo de terra, luz, ar e água.

No entanto, isso não ocorre só no Haiti. É possível encontrar pessoas a comer “biscoitos de barro” psíquicos, em qualquer lugar, de qualquer origem social.

Há pessoas que oferecem “biscoito de barro” nas conversas, nas ideias, algo que não nutre o pensamento, que não fortalece a condição de raciocínio, de discernimento, de fortalecimento de um vínculo emocional.

Um “biscoito de barro” psíquico, p.e., são as desculpas dadas pelos políticos corruptos, seus álibis toscos, feitos de afetos contaminados e de terra inculta, desértica. Outro “biscoito de barro” psíquico são produtos de consumo, que tapeiam a “fome” de algo verdadeiro, como, p.e., a educação, noções básicas de higiene, a luta por uma infra-estrutura digna para assentar a moradia.

Há “biscoitos de barro” que tapeiam a fome de desenvolvimento mental. Precisamos de “fome” para planejar o próprio destino. Discernir o amigo do inimigo, conhecer a “kriptonita” (a pedra verde que minava os poderes do Super-homem) que rouba nossa energia e poder de luta, que mina nossa determinação para atingir objetivos perduráveis e sólidos.

O Haiti está sendo a vitrine do que não se quer ver, mesmo nos chamados países desenvolvidos. Ele é o “grau zero” de Civilização, a incapacidade de governar um povo, de descobrir uma dignidade humana sustentável.

Quem poderá aprender desta experiência humana tão desastrosa? Que terremotos serão ainda necessários para que se possa pensar, antecipadamente, nas conseqüências que teremos de enfrentar quando invertemos os valores, a tal ponto, que a Vida, em seus princípios básicos, não é a prioridade.

Quais são os princípios básicos? Nutrição, lugar para morar, educação dos limites entre o eu e o outro, responsabilidade pela capacidade pessoal de pensar, sentir e expressar o que sou, como sou, onde estou, para onde vou.

No Haiti vemos, com susto, seres humanos “contrabandeados” como se não fossem gentes, em troca de dinheiro ou ideologia religiosa (e não faz tanto tempo assim que a história registrou outros povos que sofreram do mesmo modo, e que nos escandalizamos até hoje, como as mulheres na Antiga Grécia, os negros, os índios, os judeus).

“É o horror”, como dizia Mr Kurtz, ao fim do romance Coração das Trevas, que o diretor Coppola levou às telas, Apocalipse Now, a questionar os valores dos quais facilmente podemos, enquanto humanidade, nos distanciar.

Se Joseph Conrad, no século XIX ambientava o horror no Congo africano, e Coppola na Guerra dos EUA contra o Vietnã, o horror do Haiti, o horror neste século XXI está na possibilidade de presenciar a miséria mais negra que um humano pode sofrer, a miséria “on line” assistida por milhões, talvez bilhões, no mundo inteiro.

Somos, todos, testemunhas deste Horror e ouvimos o mesmo dobrar de sinos no desmoronamento das crenças de uma pretensa civilidade. Estamos, ó Horror, inapelavelmente, “on line”!



 

Maria Luiza Salomão é psicóloga, do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e membro da Academia Francana de Letras

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