Insólito , bizarro, assustador, pesado, desconcertante. Mas poderoso no que se refere à capacidade de suscitar profundas reflexões depois de digerido. Este é o filme que o Peru conseguiu colocar na corrida ao Oscar, a ser decidida no dia 7 de março. Chama-se A Teta Assustada (em espanhol La Teta Asustada) e concorre como melhor título estrangeiro, depois de ter arrebatado o Urso de Ouro em Berlim. A direção é de Cláudia Llosa.
Somadas as imagens, e cinema é isso, o que o olhar reúne revela uma multifacetada alegoria. Do país miscigenado, do folclore onipresente, da pobreza endêmica. Também da sociedade cindida ao meio por um emblemático portão de ferro que tem de um lado um centro urbano caótico, de outro o plácido e ajardinado mundo da pequena elite. O país sul americano que na verdade pouco conhecemos está ali, com lembranças do Sendero Luminoso e do Tupac Amaru; das cordilheiras cortantes; do ar rarefeito; da aridez das dunas estreitas junto ao Pacífico gelado; dos mitos que jazem no seio do povo fortemente influenciado pela cultura indígena. Há o passado de opressão e violência, existe o presente de medo e miséria. A vida é muito dura nos Andes peruanos e no entorno limenho. A geopolítica e o brutal passado (o colonial e o recente) talvez expliquem porque metade da população, fomada por quechuas e aymarás, vive abaixo da linha da pobreza. O pano de fundo social contextualiza um drama individual.
Difícil é falar do filme sem recorrer àquilo que mais chamou a atenção onde foi exibido, inclusive no Festival de Gramado, que também o premiou: a batata que a protagonista mantém dentro da vagina como artifício para não ser estuprada. É um fato que se quer real na saga contada na tela; é também uma metáfora para todo impedimento sexual da moça, Fausta é o seu nome, enquanto ser feminino nascido depois de um estupro. Reza a lenda andina que toda mulher submetida a tal violência lega à filha, através de seu leite, uma doença chamada ‘teta asustada’. As filhas dessas mulheres têm um medo anormal de tudo e de todos. Estão permanentemente escondidas dentro de suas pobres casas, mal saem à rua e quando o fazem precisam ser acompanhadas. A moléstia, enquanto manifetação de desordem física, é negada pelo médico que atende a estranha paciente num hospital público, aonde ela chega depois de mais uma hemorragia nasal, respondendo com um titubeante ‘não sei’ à pergunta da enfermeira: ‘é virgem?’
Ao lado deste bloqueio emocional que instaura o isolamento e impede o fluir da fala, Fausta tem de enfrentar o desafio de conseguir dinheiro para enterrar o corpo da mãe. Esta morre debilitada em seus braços, como se fosse sua filha, numa das primeiras cenas. Refém de uma angústia paralisante, de uma solidão aterradora, incomodada pela batata que brota, Fausta precisa vencer o medo para obter um emprego na casa de uma pianista. Ali fará descobertas importantes e iniciará um tímido mas importante relacionamento com o jardineiro da casa, um homem muito sensível.
A música cantada por Fausta ao longo da história é parte integrante da estrutura do filme. Ela complementa as imagens e traduz o drama da protagonista, sua íntima ligação com a mãe, sua exclusão de um segmento ao qual só tem acesso como doméstica, a inclusão dentro de um outro que ao copiar modelos da classe média se torna caricato. Pela música tristíssima a personagem se revela, reconta não só a sua tragédia pessoal como também a de sua mãe e de todas as mulheres de um universo ainda arcaico, onde o feminino está submetido a todo tipo de exploração e de iniquidades. Pela música ela acaba se desvelando como artista à pianista, que a explora, e como mulher ao jardineiro, que a entende. É o início do processo de encontro, na própria cultura, dos elementos com os quais resolverá seu drama. Mas para que se salve de verdade, será necessário que encare o seu medo no gesto brutal de um homem. Ele a faz compreender que embora ela esteja morrendo em vida, quer de fato viver. É o momento crucial de sua libertação.
Morte e existência coexistem no filme em todas as sequências.Cerimônias de casamento e enterro, cova e piscina, crianças e velhos, fechamentos e aberturas, luz e escuridão ora se justapõem, ora se superpõem, até às imagens finais de mar aberto, balão colorido alçando a um céu de impressionante azul, um vaso de batatas em flor reafirmando a vitória da vida.
Serviço
Título: A Teta Assustada
Direção e roteiro: Cláudia Llosa
Duração: 95 minutos
Gênero: drama
Ano: 2009
Breve nos cinemas
Somadas as imagens, e cinema é isso, o que o olhar reúne revela uma multifacetada alegoria. Do país miscigenado, do folclore onipresente, da pobreza endêmica. Também da sociedade cindida ao meio por um emblemático portão de ferro que tem de um lado um centro urbano caótico, de outro o plácido e ajardinado mundo da pequena elite. O país sul americano que na verdade pouco conhecemos está ali, com lembranças do Sendero Luminoso e do Tupac Amaru; das cordilheiras cortantes; do ar rarefeito; da aridez das dunas estreitas junto ao Pacífico gelado; dos mitos que jazem no seio do povo fortemente influenciado pela cultura indígena. Há o passado de opressão e violência, existe o presente de medo e miséria. A vida é muito dura nos Andes peruanos e no entorno limenho. A geopolítica e o brutal passado (o colonial e o recente) talvez expliquem porque metade da população, fomada por quechuas e aymarás, vive abaixo da linha da pobreza. O pano de fundo social contextualiza um drama individual.
Difícil é falar do filme sem recorrer àquilo que mais chamou a atenção onde foi exibido, inclusive no Festival de Gramado, que também o premiou: a batata que a protagonista mantém dentro da vagina como artifício para não ser estuprada. É um fato que se quer real na saga contada na tela; é também uma metáfora para todo impedimento sexual da moça, Fausta é o seu nome, enquanto ser feminino nascido depois de um estupro. Reza a lenda andina que toda mulher submetida a tal violência lega à filha, através de seu leite, uma doença chamada ‘teta asustada’. As filhas dessas mulheres têm um medo anormal de tudo e de todos. Estão permanentemente escondidas dentro de suas pobres casas, mal saem à rua e quando o fazem precisam ser acompanhadas. A moléstia, enquanto manifetação de desordem física, é negada pelo médico que atende a estranha paciente num hospital público, aonde ela chega depois de mais uma hemorragia nasal, respondendo com um titubeante ‘não sei’ à pergunta da enfermeira: ‘é virgem?’
Ao lado deste bloqueio emocional que instaura o isolamento e impede o fluir da fala, Fausta tem de enfrentar o desafio de conseguir dinheiro para enterrar o corpo da mãe. Esta morre debilitada em seus braços, como se fosse sua filha, numa das primeiras cenas. Refém de uma angústia paralisante, de uma solidão aterradora, incomodada pela batata que brota, Fausta precisa vencer o medo para obter um emprego na casa de uma pianista. Ali fará descobertas importantes e iniciará um tímido mas importante relacionamento com o jardineiro da casa, um homem muito sensível.
A música cantada por Fausta ao longo da história é parte integrante da estrutura do filme. Ela complementa as imagens e traduz o drama da protagonista, sua íntima ligação com a mãe, sua exclusão de um segmento ao qual só tem acesso como doméstica, a inclusão dentro de um outro que ao copiar modelos da classe média se torna caricato. Pela música tristíssima a personagem se revela, reconta não só a sua tragédia pessoal como também a de sua mãe e de todas as mulheres de um universo ainda arcaico, onde o feminino está submetido a todo tipo de exploração e de iniquidades. Pela música ela acaba se desvelando como artista à pianista, que a explora, e como mulher ao jardineiro, que a entende. É o início do processo de encontro, na própria cultura, dos elementos com os quais resolverá seu drama. Mas para que se salve de verdade, será necessário que encare o seu medo no gesto brutal de um homem. Ele a faz compreender que embora ela esteja morrendo em vida, quer de fato viver. É o momento crucial de sua libertação.
Morte e existência coexistem no filme em todas as sequências.Cerimônias de casamento e enterro, cova e piscina, crianças e velhos, fechamentos e aberturas, luz e escuridão ora se justapõem, ora se superpõem, até às imagens finais de mar aberto, balão colorido alçando a um céu de impressionante azul, um vaso de batatas em flor reafirmando a vitória da vida.
Serviço
Título: A Teta Assustada
Direção e roteiro: Cláudia Llosa
Duração: 95 minutos
Gênero: drama
Ano: 2009
Breve nos cinemas
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Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço |
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