O homem olha demoradamente a Concha Acústica, volta-se e caminha até o Relógio do Sol, circula a grade que protege a pequena construção. Parece surpreso com a presença das ferragens. As muitas rugas do rosto o fazem parecer velho de mais de noventa anos.
Um rapaz, sentado num banco da praça, acaba por se levantar e se dirigir a ele que, faz algum tempo, caminha para lá e para cá, com o semblante gritando insegurança e dúvida.
- Bom-dia, meu senhor.
- Bom-dia, jovenzinho. Qual é a sua graça?
- Einh ?
-Qual é a sua graça? O meu nome é Chico Franco, seu criado.
- Ah, o meu nome é Donizete.
- Você mora por aqui?
- Não, não. Estou fazendo hora, esperando o banco abrir. Achei que o senhor estava preocupado. Eu posso ajudar?
- Pode, pode, sim. Estou meio confuso. Eu estava procurando o consultório do doutor Cirilo Barcelos. Lembro que era encostado na Padaria Antártica, mas... está esquisito...
- Essa padaria eu nunca vi falar não. Agora o doutor Cirilinho, eu sei. O consultório dele fica lá na Praça do Cemitério.
Donizete, um quarentão cujos cabelos brancos ameaçam conquistar todo o cocuruto, nunca ouviu falar em Bar e Padaria Antártica. Nunca soube que o doutor Cirilo Barcelos é pai do doutor Cirilinho. Não pode imaginar que o doutor Cirilo realizou milhares de partos em Franca, muitíssimos para famílias que não podiam pagar pelos seus serviços.
O bem intencionado Donizete nunca soube, por certo, que o Doutor Cirilo Barcelos trabalhou anos e anos de graça para a Associação Atlética Francana. Muito menos sabe que os torcedores da Feiticeira nem sempre agradeceram convenientemente ao filantropo. Ao contrário, brincavam com ele. Ao invés de externarem gratidão, ainda escarneciam do médico e do atleta lesionado.
Bastava o Doutor Cirilo entrar no campo para avaliar a contusão de algum jogador, já surgiam gritos e os comentários jocosos.
- O doutor vai fazer o parto do Antenor...
O defensor se chocava com o atacante, sua boca começava a sangrar, e já o Doutor Cirilo saía em carreira desabalada, ia socorrer o ferido, estancar o sangramento. Os torcedores não perdiam a chance.
- O Doutor Cirilo está olhando a idade do Zé Mauro.
O jovem Donizete nunca ouviu falar no ponta-direita Antenor, nem no beque Zé Mauro. É, todavia, pessoa bondosa, tenta ajudar.
- O senhor quer perguntar pra alguém ali na Praça Barão ?
-O consultório do Doutor Fernando Ruas você sabe ?
- Sei não senhor. Nunca vi falar.
- As pessoas estão ficando muito esquecidas, jovenzinho... Eu fico andando de um lado para o outro e ninguém explica direito... Olha aqui, rapazinho, o Doutor Cirilo, mais o Doutor Fernando Ruas, mais o Doutor Alonso são quase santos. Todo mundo tem que conhecer...
Donizete leva susto com o descontrole emocional do velho, procura acalmá-lo, mudando de assunto.
- Parece que a chuva foi embora. O senhor não acha?
O interlocutor olha para o céu. Ao baixar a cabeça, parece descobrir Donizete.
- Bom-dia, jovenzinho. Você sabe me dizer para que lado fica a Rua dos Bondes?
- Sei não. Pra onde o senhor quer ir?
- Lá para a Estação da Mogiana. Eu moro atrás da linha de ferro.
- Ah, então faz assim: vai reto aqui. Quando chegar no fim da praça, vire pra esquerda. Pra esquerda, entendeu?
- Obviamente, jovenzinho. Obviamente.
E o velho se vai, batendo a ponta da bengala nas pedrinhas do calçamento, em direção ao fundo da Praça Nossa Senhora da Conceição.
Um rapaz, sentado num banco da praça, acaba por se levantar e se dirigir a ele que, faz algum tempo, caminha para lá e para cá, com o semblante gritando insegurança e dúvida.
- Bom-dia, meu senhor.
- Bom-dia, jovenzinho. Qual é a sua graça?
- Einh ?
-Qual é a sua graça? O meu nome é Chico Franco, seu criado.
- Ah, o meu nome é Donizete.
- Você mora por aqui?
- Não, não. Estou fazendo hora, esperando o banco abrir. Achei que o senhor estava preocupado. Eu posso ajudar?
- Pode, pode, sim. Estou meio confuso. Eu estava procurando o consultório do doutor Cirilo Barcelos. Lembro que era encostado na Padaria Antártica, mas... está esquisito...
- Essa padaria eu nunca vi falar não. Agora o doutor Cirilinho, eu sei. O consultório dele fica lá na Praça do Cemitério.
Donizete, um quarentão cujos cabelos brancos ameaçam conquistar todo o cocuruto, nunca ouviu falar em Bar e Padaria Antártica. Nunca soube que o doutor Cirilo Barcelos é pai do doutor Cirilinho. Não pode imaginar que o doutor Cirilo realizou milhares de partos em Franca, muitíssimos para famílias que não podiam pagar pelos seus serviços.
O bem intencionado Donizete nunca soube, por certo, que o Doutor Cirilo Barcelos trabalhou anos e anos de graça para a Associação Atlética Francana. Muito menos sabe que os torcedores da Feiticeira nem sempre agradeceram convenientemente ao filantropo. Ao contrário, brincavam com ele. Ao invés de externarem gratidão, ainda escarneciam do médico e do atleta lesionado.
Bastava o Doutor Cirilo entrar no campo para avaliar a contusão de algum jogador, já surgiam gritos e os comentários jocosos.
- O doutor vai fazer o parto do Antenor...
O defensor se chocava com o atacante, sua boca começava a sangrar, e já o Doutor Cirilo saía em carreira desabalada, ia socorrer o ferido, estancar o sangramento. Os torcedores não perdiam a chance.
- O Doutor Cirilo está olhando a idade do Zé Mauro.
O jovem Donizete nunca ouviu falar no ponta-direita Antenor, nem no beque Zé Mauro. É, todavia, pessoa bondosa, tenta ajudar.
- O senhor quer perguntar pra alguém ali na Praça Barão ?
-O consultório do Doutor Fernando Ruas você sabe ?
- Sei não senhor. Nunca vi falar.
- As pessoas estão ficando muito esquecidas, jovenzinho... Eu fico andando de um lado para o outro e ninguém explica direito... Olha aqui, rapazinho, o Doutor Cirilo, mais o Doutor Fernando Ruas, mais o Doutor Alonso são quase santos. Todo mundo tem que conhecer...
Donizete leva susto com o descontrole emocional do velho, procura acalmá-lo, mudando de assunto.
- Parece que a chuva foi embora. O senhor não acha?
O interlocutor olha para o céu. Ao baixar a cabeça, parece descobrir Donizete.
- Bom-dia, jovenzinho. Você sabe me dizer para que lado fica a Rua dos Bondes?
- Sei não. Pra onde o senhor quer ir?
- Lá para a Estação da Mogiana. Eu moro atrás da linha de ferro.
- Ah, então faz assim: vai reto aqui. Quando chegar no fim da praça, vire pra esquerda. Pra esquerda, entendeu?
- Obviamente, jovenzinho. Obviamente.
E o velho se vai, batendo a ponta da bengala nas pedrinhas do calçamento, em direção ao fundo da Praça Nossa Senhora da Conceição.
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Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras |
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