Após minuciosa pesquisa, o francano Fernando de Tacca lançou recentemente o livro Imagens do Sagrado - Entre Paris Match e O Cruzeiro, pela Editora Unicamp/Imprensa Oficial de SP, obra que trata do embate midiático entre a revista francesa Paris Match e a brasileira O Cruzeiro, na década de 50, a propósito da divulgação de imagens dos ritos de iniciação no candomblé baiano.
Corria o ano de 1950 quando o cineasta francês Henri-Georges Clouzot aportou na Bahia, interessado em produzir um filme interpretado por atores negros. O projeto não seguiu adiante, mas, intrigado pela ritualística das religiões afro-brasileiras em Salvador, o diretor, então prestigiado internacionalmente por seus filmes Corbeau; Manon e Miquette et sa Mère decide reportar fotograficamente e por meio de texto o processo de introdução das iaôs no candomblé.
Em 12 de maio de 1951, o hebdomadário Paris Match publica então a reportagem As possuídas da Bahia, aclamada, nas suas lides, como “extraordinário documento etnográfico” acerca das “cerimônias fetichistas” que se davam nos terreiros de candomblés, onde aconteciam imolações, transes ao som de tambores, gritos “inumanos” de filhas-de-santo, oferendas aos orixás em sessões classificadas por seu olhar estrangeiro como “ritos sanguinários herdados da Idade da Pedra”. Seu olhar outsider também transparece na descrição que faz de suas empregadas Petronília e Anita, incluídas na matéria como objetos de estudo, esta última descrita como “espécie de monstro pré-histórico”. A matéria publicada na França e logo reproduzida por jornais brasileiros causou polêmica entre os praticantes do candomblé, jornalistas e intelectuais locais. Lamentavam o estrabismo de Clouzot quanto às questões étnicas, sociológicas e religiosas; acusaram-no de persistir na mentalidade européia colonialista, sobretudo, taxaram-no sensacionalista. O sociólogo Roger Bastide, envolvido na pesquisa dos cultos afro-brasileiros, num extenso artigo em defesa dos segredos do candomblé chamou sua descrição da cerimônia de “uma deformação turística”, enfatizando a náusea de Clouzot, clara em sua reportagem.
A revista brasileira O Cruzeiro, publicação de sucesso de Os Diários Associados, de propriedade do lendário Assis Chateaubriand, decide que não pode ficar atrás do “furo” jornalístico dado por veículo estrangeiro acerca de temática tão nacional e envia o fotógrafo José Medeiros juntamente com o repórter Arlindo Silva à Bahia, que produzem no terreiro da mãe de santo Riso da Plataforma a matéria As noivas dos deuses sanguinários, com imagens que mostram claramente os rostos dos praticantes dos rituais e que posteriormente resultariam na execração de mãe Riso no mundo do candomblé baiano.
O grande fotógrafo francês Pierre Verger, já internacionalmente conhecido e contratado de O Cruzeiro, também um iniciado apaixonado no candomblé baiano, escapa literalmente à francesa da quizila. Não participará desse enfrentamento entre duas grandes publicações, servindo, por meio de seu silêncio e pela negativa em apresentar registros anteriores dos rituais de que ele próprio participava e reverenciava, como um “contracampo ético” que o torna ainda mais admirável em seu legado.
Toda a intectualidade brasileira que antes atacara Clouzot e Paris Match se mantém calada diante da reportagem em O Cruzeiro, exceto por Roger Bastide, que aludindo uma “moralidade jornalística” (ora, ninguém queria se indispor com Chatô, o poderoso dono da revista), equipara a publicação a um “crime” de ordem ética ao perpretado por Clouzot e Paris Match. Mãe Riso é acusada de ‘vender’ os segredos do ritual sagrado à mídia e acaba sendo perseguida por seus pares baianos e também por intelectuais, transferindo-se, posteriormente, para Nilópolis, no Rio de Janeiro.
Tal opróbrio, no entanto, aparece na pesquisa de Fernando de Tacca como um deslocamento: em não podendo atacar os responsáveis pela “revelação do segredo”, enfim, culpabilizam quem permitira a infiltração da mídia em território sagrado.
Livro que se lê de forma fluida e que absorve o leitor pelo estilo leve, pela metodologia e imparcialidade na pesquisa, pelo anedótico que traz nos textos da época, com seus exageros lingüísticos, seu preciosismo quase literário e opinativo (a carta de Leão Gondim, por exemplo, e a matéria de Arlindo Silva, nesse contexto). Sublinha, por meio dos fatos apresentados, questões éticas - tão atuais - no jornalismo e leva a pensar que ao cabo dessas contendas editoriais em busca do “furo”, alguém pagará o pato. E será, quase sempre, o lado mais fraco.
Serviço
Título: Imagens do Sagrado
Autor: Fernando de Tacca
Editora: Unicamp
Quanto custa: R$ 35
Onde comprar: www.submarino.com.br
Corria o ano de 1950 quando o cineasta francês Henri-Georges Clouzot aportou na Bahia, interessado em produzir um filme interpretado por atores negros. O projeto não seguiu adiante, mas, intrigado pela ritualística das religiões afro-brasileiras em Salvador, o diretor, então prestigiado internacionalmente por seus filmes Corbeau; Manon e Miquette et sa Mère decide reportar fotograficamente e por meio de texto o processo de introdução das iaôs no candomblé.
Em 12 de maio de 1951, o hebdomadário Paris Match publica então a reportagem As possuídas da Bahia, aclamada, nas suas lides, como “extraordinário documento etnográfico” acerca das “cerimônias fetichistas” que se davam nos terreiros de candomblés, onde aconteciam imolações, transes ao som de tambores, gritos “inumanos” de filhas-de-santo, oferendas aos orixás em sessões classificadas por seu olhar estrangeiro como “ritos sanguinários herdados da Idade da Pedra”. Seu olhar outsider também transparece na descrição que faz de suas empregadas Petronília e Anita, incluídas na matéria como objetos de estudo, esta última descrita como “espécie de monstro pré-histórico”. A matéria publicada na França e logo reproduzida por jornais brasileiros causou polêmica entre os praticantes do candomblé, jornalistas e intelectuais locais. Lamentavam o estrabismo de Clouzot quanto às questões étnicas, sociológicas e religiosas; acusaram-no de persistir na mentalidade européia colonialista, sobretudo, taxaram-no sensacionalista. O sociólogo Roger Bastide, envolvido na pesquisa dos cultos afro-brasileiros, num extenso artigo em defesa dos segredos do candomblé chamou sua descrição da cerimônia de “uma deformação turística”, enfatizando a náusea de Clouzot, clara em sua reportagem.
A revista brasileira O Cruzeiro, publicação de sucesso de Os Diários Associados, de propriedade do lendário Assis Chateaubriand, decide que não pode ficar atrás do “furo” jornalístico dado por veículo estrangeiro acerca de temática tão nacional e envia o fotógrafo José Medeiros juntamente com o repórter Arlindo Silva à Bahia, que produzem no terreiro da mãe de santo Riso da Plataforma a matéria As noivas dos deuses sanguinários, com imagens que mostram claramente os rostos dos praticantes dos rituais e que posteriormente resultariam na execração de mãe Riso no mundo do candomblé baiano.
O grande fotógrafo francês Pierre Verger, já internacionalmente conhecido e contratado de O Cruzeiro, também um iniciado apaixonado no candomblé baiano, escapa literalmente à francesa da quizila. Não participará desse enfrentamento entre duas grandes publicações, servindo, por meio de seu silêncio e pela negativa em apresentar registros anteriores dos rituais de que ele próprio participava e reverenciava, como um “contracampo ético” que o torna ainda mais admirável em seu legado.
Toda a intectualidade brasileira que antes atacara Clouzot e Paris Match se mantém calada diante da reportagem em O Cruzeiro, exceto por Roger Bastide, que aludindo uma “moralidade jornalística” (ora, ninguém queria se indispor com Chatô, o poderoso dono da revista), equipara a publicação a um “crime” de ordem ética ao perpretado por Clouzot e Paris Match. Mãe Riso é acusada de ‘vender’ os segredos do ritual sagrado à mídia e acaba sendo perseguida por seus pares baianos e também por intelectuais, transferindo-se, posteriormente, para Nilópolis, no Rio de Janeiro.
Tal opróbrio, no entanto, aparece na pesquisa de Fernando de Tacca como um deslocamento: em não podendo atacar os responsáveis pela “revelação do segredo”, enfim, culpabilizam quem permitira a infiltração da mídia em território sagrado.
Livro que se lê de forma fluida e que absorve o leitor pelo estilo leve, pela metodologia e imparcialidade na pesquisa, pelo anedótico que traz nos textos da época, com seus exageros lingüísticos, seu preciosismo quase literário e opinativo (a carta de Leão Gondim, por exemplo, e a matéria de Arlindo Silva, nesse contexto). Sublinha, por meio dos fatos apresentados, questões éticas - tão atuais - no jornalismo e leva a pensar que ao cabo dessas contendas editoriais em busca do “furo”, alguém pagará o pato. E será, quase sempre, o lado mais fraco.
Serviço
Título: Imagens do Sagrado
Autor: Fernando de Tacca
Editora: Unicamp
Quanto custa: R$ 35
Onde comprar: www.submarino.com.br
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Vanessa Maranha é psicóloga, jornalista e escritora |
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