Eterno presente


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No último sábado, apertei a tecla das horas do meu computador e ele falou:
- É zero hora.

Estiquei os braços, alonguei as pernas e levantei-me da cadeira. Desci a escada e fui até a cozinha. Preparei um lanche. Sentei-me na copa, enchi uma xícara de café e fartei-me do saboroso sanduíche. Fui até a sala e ouvi um pouco de televisão. O filme, como sempre, era insuportável. Dirigi-me ao banheiro, escovei os dentes e subi novamente para o meu escritório. O computador estava ligado. Acionei automaticamente a tecla para saber as horas e a máquina disse:
- São 23 horas.

Pensei comigo mesmo:
- Esse computador deve estar doido.

Apertei várias vezes a tecla e a máquina:
- São 23 horas. São 23 horas e 1 minuto. São 23 horas e 2 minutos. São 23 horas e 3 minutos...”

Pensei novamente:
- Será que vivi 1 hora do meu futuro? “

Foi aí que me lembrei que no último sábado terminava o horário de verão. Atrasei os relógios e enquadrei-me no horário oficial do Brasil.

Que bom seria se pudéssemos atrasar os relógios e viver novamente o passado ou, então , adiantá-los para viver o futuro. Mas, que nada! Na verdade, o passado passou e o futuro é inatingível como a linha do horizonte. Na realidade, vivemos um eterno presente. Do passado, temos lembranças; do futuro, expectativas. Existimos no presente que se esgota a cada segundo.

O tempo é uma ilusão. O tempo não existe e nunca existiu. No entanto, envelhecemos. Envelhecemos porque a vida exige mudança, transformação, movimento. A vida é sucessão. A vida exige a morte: a nossa e a do mundo que nos rodeia.

Podemos atrasar ou adiantar os relógios em minutos, horas, anos, séculos, eras. Porém, nada, absolutamente nada, conseguirá arrancar-nos do nosso presente (a não ser a morte). Não podemos alterar em nada o eterno fluir da vida que se realiza no presente onde se encontram a memória do passado e as promessas do futuro.



 

Chiachiri Filho é historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo municipal e membro da Academia Francana de Letras

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