Havia na janela uma pequena fresta pela qual uma réstia de luz entrava pelo quarto. Podia ver alguma sombra passando do outro lado da rua. Era por ali também que entrava alguma brisa que aplacava o calor sufocante e o cheiro de mofo que deixava ainda mais difícil a respiração. O olhar vidrado parecia estar perdido em algum espelho. Era tudo que tinha.
Nenhum modelo de beleza, mas já fora moça, e sua pele fresca e lisa arrancara suspiros de alguns menos exigentes. Os olhos, esses sim, luminosos, dessa alegria sem motivo que a juventude faz questão de exibir. E esperava, ah como esperava... Esperava pela roupa nova nas datas importantes, pelo fim de semana com os passeios simples que seu dinheiro podia pagar... Adiou os planos de continuar estudando; ao invés disso, ganhou da mãe uma máquina de costura e nela se enfiou até o dia em que sua vista já não permitia mais enfiar a linha na agulha. Esperou e encontrou o marido... Assim, assim, viveram... Sem grandes arroubos de amor e nem tampouco desavenças. A definição ideal seria morno. Vieram os filhos, muitos. Cresceram e se foram cumprindo, cada qual sua própria sentença. Foi-se também o marido... Nem muita lágrima, nem alívio. Assim, assim...
Depois chegou a solidão, reclusão voluntária à qual se obrigou. Poucos amigos, alguma visita. O barulho dos netos a incomodava, por isso, naturalmente, estes foram se afastando. Aos poucos, assim, assim.
Agora esse vazio a povoar-lhe a memória. Laivos de imagens que se dissipam com a mesma velocidade com que aparecem. Como podia esquecer-se do lugar onde deixara os óculos, a flanela com que estava limpando os móveis, a roupa que recolhera do varal, os sonhos...??? !!!
Como na janela, apenas uma pequena frincha permitia a entrada da realidade naquela confusa cabeça e durante um breve intervalo de lucidez, formulou este pensamento: enfim, sou isso? E como se respondesse à própria pergunta, assim, assim lembrou-se do verso que um dia lera no poema de Cecília Meirelles: “em que espelho ficou perdida minha face”?
Nenhum modelo de beleza, mas já fora moça, e sua pele fresca e lisa arrancara suspiros de alguns menos exigentes. Os olhos, esses sim, luminosos, dessa alegria sem motivo que a juventude faz questão de exibir. E esperava, ah como esperava... Esperava pela roupa nova nas datas importantes, pelo fim de semana com os passeios simples que seu dinheiro podia pagar... Adiou os planos de continuar estudando; ao invés disso, ganhou da mãe uma máquina de costura e nela se enfiou até o dia em que sua vista já não permitia mais enfiar a linha na agulha. Esperou e encontrou o marido... Assim, assim, viveram... Sem grandes arroubos de amor e nem tampouco desavenças. A definição ideal seria morno. Vieram os filhos, muitos. Cresceram e se foram cumprindo, cada qual sua própria sentença. Foi-se também o marido... Nem muita lágrima, nem alívio. Assim, assim...
Depois chegou a solidão, reclusão voluntária à qual se obrigou. Poucos amigos, alguma visita. O barulho dos netos a incomodava, por isso, naturalmente, estes foram se afastando. Aos poucos, assim, assim.
Agora esse vazio a povoar-lhe a memória. Laivos de imagens que se dissipam com a mesma velocidade com que aparecem. Como podia esquecer-se do lugar onde deixara os óculos, a flanela com que estava limpando os móveis, a roupa que recolhera do varal, os sonhos...??? !!!
Como na janela, apenas uma pequena frincha permitia a entrada da realidade naquela confusa cabeça e durante um breve intervalo de lucidez, formulou este pensamento: enfim, sou isso? E como se respondesse à própria pergunta, assim, assim lembrou-se do verso que um dia lera no poema de Cecília Meirelles: “em que espelho ficou perdida minha face”?
![]() |
Marina Garcia Garcia Pedagoga e professora de Português |
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.
