Ana Márcia V. de Paula Rodrigues
Especial para o Comércio
No próximo sábado, no ll Cinema e Psicanálise de Franca, na sede campestre do Centro Médico, a partir das 15 horas, será apresentado o segundo filme do ano, O Visitante. Produzido e lançado nos EUA há três anos, somente chegou aqui em 2009, ao ter seu protagonista, Richard Jenkins, indicado ao Oscar de melhor ator pela Academia de Hollywood. Vem atraindo a atenção das pessoas para um drama valioso pelo que proporciona de reflexão sobre afetos, liberdade, acolhimento e transformações.
Vale a pena observar a construção da história a partir de um paradoxo: um inesperado visitante estrangeiro muda a vida de um professor universitário americano. Este, embora muito desenvolvido intelectualmente, padece de subdesenvolvimento afetivo e pessoal. Seu resgate só será possível mediante a convivência com estrangeiros do Terceiro Mundo, também em busca de liberdade e desenvolvimento, embora num outro contexto.
Na história, o protagonista Walter Vale, escritor e professor reconhecido, perdeu sua esposa e a vontade de viver e criar, dando sempre as mesmas aulas a seus alunos e fugindo do contato com colegas.
Tarek (Haaz Sleiman) é o jovem músico sírio que irá compartilhar com Walter sua paixão pela música, contaminando-o definitivamente e gerando novamente paixão pela vida. Assistimos o passo a passo do renascimento de Walter que vai saindo de seu fechamento afetivo para encontros pulsantes. Neste contexto o bater do tambor africano ganha status simbólico de transformação.
Freud, no seminal artigo chamado O Estranho, publicado em 1919, girou o eixo da mente humana ao dizer que somente observando as nossas estranhas forças ocultas poderemos trazer à luz nossas verdades e viver com maior autonomia, pensando por nós mesmos. Assim ele definiu o Estranho: “Chama-se estranho a tudo que estando destinado a permanecer em segredo, oculto... veio à luz.”
Por muito tempo a Psicanálise também foi considerada “estranha” (e ainda o é), por não menosprezar ou eliminar aquilo que o ser humano tem de tenebroso, escondido, selvagem, assustador e que pode causar repulsa; e por tratar este lado escuro da mente com a mesma atenção e seriedade com que observa o lado mais criativo. A mesma energia mental considerada satânica e exorcizada por muitos, representa força e potencial para transformações.
Foi preciso um estrangeiro como Freud para se expor a tão árdua quanto magnífica tarefa, que se encontra na contramão do mundo atual, ansioso por “antecipar resultados, ainda que sejam falsos e artificiais, e construam apenas próteses para a dor mental”.
Este filme permite criar uma metáfora para a importância de não se rejeitar ou excluir antecipadamente os “estrangeiros” ou “estranhos” de nossa vida. Como Freud nos alertou, esses estranhos hóspedes parecem ser até mais poderosos do que os conhecidos e familiares, numa alusão ao poder do inconsciente sobre os pensamentos e atos humanos.
É no inconsciente que moramos mais do que pensamos e portanto o conceito de liberdade se torna bastante relativo, pois nunca será condição plena. Também é no inconsciente que reside a fonte das forças criativas e destrutivas do homem.
É justamente no repúdio a esta condição da mente humana que surge a vasta gama de transtornos mentais, como as depressões, as neuroses, as psicoses, as drogadições, anorexias, doenças psicossomáticas, somatizações, etc.
Podemos reproduzir a política do desafeto que o contexto social do filme nos mostra. Ou podemos corajosamente receber o “estranho” em nossa vida, como fez o professor Walter, empreendendo a legítima busca de quem nós somos antes de morrer.
O tema é complexo e encontra um paralelo na cosmopolita Nova York, ao mostrar que ao mesmo tempo que ali cohabitam pessoas do mundo todo, há descaso e aversão do governo para com seus imigrantes ilegais, em tempos pós-11 de setembro.
Nos dois temas que O Visitante aborda, os expectadores podem alcançar maior compreensão do que é ser livre. E se liberdade é realmente aquela condição ideal, distante e inatingível, ou fruto de uma incessante busca por nossos valores e humanidade.
SERVIÇO
Evento: Cinema e Psicanálise
Filme: O Visitante
Quando: sábado, dia 17
Horário: 15 horas
Onde: sede campestre do Centro Médico de Franca
Inscrições: R$ 5
Informações: (16) 3723-2815
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