A Mulher do Padre


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Sra. M. Assumpcion. Era assim que ela se apresentava e assinava o livro de hóspedes da Pensão Esperança. Embora limpinha, a pensão era destinada a tropeiros e caixeiros viajantes e não a figuras vestidas com recato, de fino trato, envolta em mistérios, como aquela.

O fato é que, amiúde, essa respeitável senhora visitava o Vilarejo do Quinzão. Embora cumprimentasse a todos educadamente, a ninguém dava prosa. A ninguém não, com o padre Bento sua visita durava tardes inteiras, a portas fechadas, num pequeno escritório na casa paroquial.

Finda a reunião, quase ao anoitecer, retornava à pensão onde jantava em seu quarto. No dia seguinte, de madrugadinha, partia no primeiro horário na jardineira do Alemão.

Tanto segredo, tanto mistério eram demais pro povo daquele vilarejo. Aos poucos esse bando de gente à toa, sentada nos bancos da pracinha do coreto, assuntando daqui e dali, concluía que aquela respeitosa senhora era na verdade “mulher do padre”.

A boataria só fez aumentar. Caminhava-se para um escândalo. A Liga das Senhoras Católicas do Vilarejo do Quinzão queria marcar audiência com o bispo da diocese. Queria colocá-lo a par do assunto para que tomasse as devidas providências.

Toda a molecada, entre eles eu, estava de ‘cabelo em pé’. Se o padre tinha mulher, tinha filho também. Um adágio popular fazia constar que filho de padre era lobisomem.

Medo. As brincadeiras de rua, principalmente à noite, estavam proibidas. Nós, enquanto não se resolvia o entrevero, ficávamos trancados em casa. Quando muito permanecíamos no alpendre jogando bugalhos. Longe da rua, não havia “pique de pegar”, nem “cadeia salva”, nem “cebolão”.

A situação estendeu-se mais do que podíamos suportar. Decidimos, eu e o Pardal, decifrar de vez aquele mistério. Enquanto o padre rezava a missa, arranjamos um jeito de entrar pelo forro da casa paroquial, cheio de morcegos e cocô de pombo, nos colocar sobre o escritório e, através de um buraco de fiação elétrica, ver o que se passava lá dentro. Assim que Sra. M. Assumpcion chegou ao vilarejo corremos para nosso esconderijo.

Entraram. Padre Bento sentou-se na cadeira junto à escrivaninha e abriu um grande livro de capa preta. A senhora sentou-se à sua frente e, por Deus, foi isso que ouvi:
-Mas a senhora já está de volta? reclamou o padre.
-Não sentiu saudades? brincou a mulher.
- Nada pessoal, mas suas visitas não deixam saudades. resmungou o sacerdote.
- Já discutimos sobre isso, é a vida. Você tem a sua missão, eu tenho a minha. Foi Deus, nosso patrão, que assim o fez.
- Tá bom, tá bom, mas está tudo tão tranquilo por aqui...Dona Matilde, que estava mal por causa da Chagas, até melhorou. Os adversários políticos estão calmos, pois eleição só no ano que vem. De modo que de seus serviços o Vilarejo do Quinzão no momento não carece.
- Ora padre, onde há vida tem serviço pra mim. Você sabe que não descanso. Se tem alguém pra nascer, tem sempre alguém pra morrer.
“‘M’ de Morte”- cochichei para o Pardal. Paralisados de medo, ficamos olhando os dois debruçarem-se sobre o livro de capa preta e o Padre Bento barganhando:
-Veja bem: Dona Zefa e a pequena Clarice, que Deus as tenha, tinham sua hora marcada; a velha por já estar bem velha, beirando os cem, e a menina por ter sido picada por capitão-do-mato, já cega, com muita dor que doutor nenhum dava jeito. Então você fez até bem em levá-las. Mas hoje, olha aqui no livro, minhas ovelhas estão todas sadias, acho que dessa vez você perdeu a viagem.

Mas a danada não se deu por vencida:
- Mas eu não faço meu serviço só por obra de velhice, de bala e picada de cobra; já ouviu aquele dito popular: “curiosidade mata”?
Disse isso com um risinho discreto olhando para os intrusos do teto. Saímos correndo desesperados. Ainda assim ouvi os gritos do Padre Bento:
- Não, o Carlinhos não! Não, o Pardal não!
Em casa, apavorado e cheio de cocô de pombo, enfiei-me debaixo da cama e lá passei a noite toda rezando todas as rezas que tinha aprendido no catecismo.

Pela manhã escutei a jardineira do Alemão deixando a vila e respirei aliviado. “Ela” tinha ido embora. Corri pra casa do Pardal pra convencê-lo a irmos nos confessar com o Padre Bento.

No caminho cruzamos com uma perua que anunciava em seu autofalante o circo que acabara de chegar e sua maior atração : MARATONGA , a bela que vira fera.

Esquecemos a confissão e saímos correndo atrás da perua. No caminho passamos pelo Padre Bento que sorrindo colocou o dedo indicador na boca ordenando silêncio sobre o ocorrido. Correndo atrás do circo, Pardal ainda comentou:
-Eita padrinho bom de barganha, sô!



 

Paulo Rubens Gimenes Publicitário e conselheiro do Comércio da Franca

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