Quando chegava a hora do recreio e não havia rusgas que nos deixassem apreensivos, como uma promessa de ajuste de contas, por exemplo, algo bastante comum entre a molecada, parece que a vida se tornava leve, agradável, com alguma dimensão de magia. Logo após tomarmos a merenda oferecida pelo governo, era hora de brincar. Nada de brincadeiras que sujassem a roupa ou que nos afastassem para longe da escola, alertava a professora. Nada de correr pelos pastos, nadar no açude ou andar no mato. Eu gostava muito quando a professora propunha brincadeiras que envolviam a todos ao mesmo tempo, meninos, meninas e até ela mesma. Era ocasião de nos aproximarmos das meninas, apesar da timidez insinuante que marcava boa parte de nós os meninos. Vamos brincar de ciranda... Venham, dêem-se as mãos. Um menino, uma menina, um menino, uma menina... A professora era amável, despojada, e muito dinâmica. Uma bela jovem carioca, incrustada entre as Serras do Sul de Minas. Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...! Hoje vamos brincar de Passarim. Quem começa no meio da roda...? E todos dávamos as mãos, formávamos uma roda no gramado em frente à escola. No meio, um de nós era o Passarim, cujo objetivo era fugir, rompendo a cerca de braços dos colegas. “Passarim sai”, era o grito obrigatório, enquanto o cativo se lançava contra os braços dos amigos, tentando romper os elos de mãos com o peito, entortando a roda.
Mas se havia alguma rusga, o recreio perdia toda a graça. E quem prometia ajuste de contas lá fora, era obrigado a cumprir a promessa, sob pena de passar por covarde. Mas, na verdade, nunca houve briga pra valer, porque a professora, conquanto dissimulasse, sabia de tudo que ocorria entre nós. Até mesmo a vida particular de cada um ela acompanhava. Uma vez ela deu os cadernos para o Paulinho, cujo pai estava doente... Deu, também, as roupas da primeira comunhão ao Juquinha, cuja mãe era viúva e tinha três filhos pequenos... Toda vez que se formava a rodinha de moleques, para começar uma briga, ela chegava. E entrava no meio e pedia explicações, de cada um. Após rebater todos os argumentos dos contendores, dizia que éramos todos irmãos e que assim devíamos nos considerar... Que briga era coisa muito feia, indigna de crianças tão bonitas... No fim, envergonhados, os briguentos acabavam se abraçando ou se comprometendo a mudar de atitude. E ela os acompanhava à distância, até que as coisas se acalmassem definitivamente.
Eu não sabia explicar porque, mas lá no meu íntimo eu entendia bem a lições de Dona Cidinha sobre a importância da amizade. No dia em que ela apartou uma briga minha com o Cidão, que eu considerava o maior chato da classe, senti que ela tinha razão. E que ele era até “legal” mesmo, como ela dissera. E, de fato, acabamos virando amigos, dali em diante. As brigas tiravam toda a graça do recreio, das aulas, e da hora de ir embora... Não era só por causa do medo que todos nós sentíamos, no íntimo, apesar das demonstrações de valentia. Elas criavam tensão e acabavam com o ambiente agradável dos folguedos. As brincadeiras de roda... Essas eu nunca mais esqueci. Nem parece que elas estão encerradas para sempre num passado distante... Parece-me que elas ainda existem, em um universo paralelo, próximo, e que são eternas. E que eu, apenas, é que tomei um outro rumo, em direção a um mundo um pouco mais sem graça...
Mas se havia alguma rusga, o recreio perdia toda a graça. E quem prometia ajuste de contas lá fora, era obrigado a cumprir a promessa, sob pena de passar por covarde. Mas, na verdade, nunca houve briga pra valer, porque a professora, conquanto dissimulasse, sabia de tudo que ocorria entre nós. Até mesmo a vida particular de cada um ela acompanhava. Uma vez ela deu os cadernos para o Paulinho, cujo pai estava doente... Deu, também, as roupas da primeira comunhão ao Juquinha, cuja mãe era viúva e tinha três filhos pequenos... Toda vez que se formava a rodinha de moleques, para começar uma briga, ela chegava. E entrava no meio e pedia explicações, de cada um. Após rebater todos os argumentos dos contendores, dizia que éramos todos irmãos e que assim devíamos nos considerar... Que briga era coisa muito feia, indigna de crianças tão bonitas... No fim, envergonhados, os briguentos acabavam se abraçando ou se comprometendo a mudar de atitude. E ela os acompanhava à distância, até que as coisas se acalmassem definitivamente.
Eu não sabia explicar porque, mas lá no meu íntimo eu entendia bem a lições de Dona Cidinha sobre a importância da amizade. No dia em que ela apartou uma briga minha com o Cidão, que eu considerava o maior chato da classe, senti que ela tinha razão. E que ele era até “legal” mesmo, como ela dissera. E, de fato, acabamos virando amigos, dali em diante. As brigas tiravam toda a graça do recreio, das aulas, e da hora de ir embora... Não era só por causa do medo que todos nós sentíamos, no íntimo, apesar das demonstrações de valentia. Elas criavam tensão e acabavam com o ambiente agradável dos folguedos. As brincadeiras de roda... Essas eu nunca mais esqueci. Nem parece que elas estão encerradas para sempre num passado distante... Parece-me que elas ainda existem, em um universo paralelo, próximo, e que são eternas. E que eu, apenas, é que tomei um outro rumo, em direção a um mundo um pouco mais sem graça...
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José Borges da Silva Membro da Academia Francana de Letras |
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