“Nunca alguém é tão ele
mesmo como quando se quer
fazer passar por outro.”
Fábio Herrmann,
psicanalista.
Cinema & Psicanálise traz Dr. Paulo de M.M. Ribeiro, psicanalista da SBPSP e da SBPRP, para comentar o filme “O Perfume”, 2006, do diretor Tom Tykwer, baseado no livro homônimo de Patrick Süskind, 1985. Na sede campestre do Centro Médico, às 15 horas.
Jean Baptiste Grenouille, o assassino do qual se conta a história, não tem cheiro próprio. Sua mãe tenta matá-lo, ao parir e o abandonar em meio ao odor de mijos de ratos e peixes pútridos. Ele, no entanto, mantém uma força de vida obsessiva, apesar da repulsão coletiva. Seu desenvolvimento é retardado na locomoção, na linguagem, mas possui uma “genialidade” que o faz reconhecer, em filigranas, qualquer coisa, viva ou inanimada, pelo cheiro. Domina um rico léxico para odores, idiossincrático, impossível de compartilhar. Busca a “essência humana” através do mais refinado perfume .
No livro, Grenouille reflete: “o aroma é irmão da respiração”. “queria ser o Deus onipotente do aroma, como o fora em suas fantasias, mas agora no mundo real e sobre pessoas reais.”. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas”. (p.159)
Uma leitura possível é ver o filme (o livro) como uma fábula contemporânea sobre o fenômeno coletivo trágico - do Nazismo, na busca de uma depuração do aroma humano, como a busca da raça ariana, através da morte.
A palavra, na comunidade humana, é vital e penetrante, a propaganda nazista refinada em imagens e palavras. A palavra é a placenta da cultura de um povo, de um grupo, psiquicamente, como o ar é a placenta biológica dos seres.
Grenouille é um ser deformado, como os autistas, que costumam ter talento com números ou memória prodigiosa para decorar livros inteiros. NO entanto, incapazes de afeto, de amar e ser amados.
O dom extraordinário do olfato leva Grenouille a criar perfumes para se assemelhar a outro ser humano. Sem cheiro, G. provoca susto, repulsa. O nome do personagem quer dizer, em francês, “sapo”, símbolo arquetípico de transformação e da sexualidade. O sapo tem, como curiosidade, um poder de adaptação formidável. Por conta de sua imobilidade (uma defesa), pode ser cozido em água, se a temperatura aumentar gradativamente, embora salte ao ser colocado em água fervente. Metáfora importante ao se pensar no processo de auto-destruição: é sempre aos poucos que se abraça um vício, se arrisca a vida em bravatas, ou há desistência quando se deveria lutar.
Grenouille mimetiza gestos e se submete a humilhações e provações, físicas e psíquicas, quase insuportáveis. Há uma pobreza de pensamento, sentimento e no uso da linguagem.
Vai a busca do perfume poderoso, matando belas jovens virgens (Eros encarnado). Domina, mas não sabe o que fazer com o dominado. É adorado, ao atingir o que alcança, o poder de ser amado e não sabe corresponder. Ele próprio é máscara, “nuvem aromática” roubada a Eros, a embaçar o juízo dos homens. Como Prometeu, tem a chama divina, por “infinito refinamento.”
Grenouille experimentou a solidão total, numa caverna-útero, aquém da vida, a viver pura sensação e fantasia. Experimentou o domínio dos homens, como se estivesse além dos mortais, sendo ele um deus. Não lhe restou lugar para existir, interna ou externamente. Impossível viver dentro de si com suas fantasias, impossível viver fora de si à custa de fascínio e sedução. “De repente (Grenouille) soube que jamais encontraria satisfação no amor, mas tão-somente no ódio, no odiar e no ser odiado” (p.243).
Grenouille quer esta experiência, de odiar e ser odiado. Talvez assim se humanizasse. Mas este gesto também lhe foi negado.
Seu ser não é “visto”, “reconhecido”. Grenouille, após atingir o ápice do seu gênio, é esquecido. Final fabuloso, embora psiquicamente verossímil!
Serviço
Título: Perfume, a história de um assassino
Direção: Tom Tykwer
Duração: 147 mim
Gênero: Ficção
Onde: Hoje, na Sede Campestre do Centro Médico
Horário: 15 horas
mesmo como quando se quer
fazer passar por outro.”
Fábio Herrmann,
psicanalista.
Cinema & Psicanálise traz Dr. Paulo de M.M. Ribeiro, psicanalista da SBPSP e da SBPRP, para comentar o filme “O Perfume”, 2006, do diretor Tom Tykwer, baseado no livro homônimo de Patrick Süskind, 1985. Na sede campestre do Centro Médico, às 15 horas.
Jean Baptiste Grenouille, o assassino do qual se conta a história, não tem cheiro próprio. Sua mãe tenta matá-lo, ao parir e o abandonar em meio ao odor de mijos de ratos e peixes pútridos. Ele, no entanto, mantém uma força de vida obsessiva, apesar da repulsão coletiva. Seu desenvolvimento é retardado na locomoção, na linguagem, mas possui uma “genialidade” que o faz reconhecer, em filigranas, qualquer coisa, viva ou inanimada, pelo cheiro. Domina um rico léxico para odores, idiossincrático, impossível de compartilhar. Busca a “essência humana” através do mais refinado perfume .
No livro, Grenouille reflete: “o aroma é irmão da respiração”. “queria ser o Deus onipotente do aroma, como o fora em suas fantasias, mas agora no mundo real e sobre pessoas reais.”. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas”. (p.159)
Uma leitura possível é ver o filme (o livro) como uma fábula contemporânea sobre o fenômeno coletivo trágico - do Nazismo, na busca de uma depuração do aroma humano, como a busca da raça ariana, através da morte.
A palavra, na comunidade humana, é vital e penetrante, a propaganda nazista refinada em imagens e palavras. A palavra é a placenta da cultura de um povo, de um grupo, psiquicamente, como o ar é a placenta biológica dos seres.
Grenouille é um ser deformado, como os autistas, que costumam ter talento com números ou memória prodigiosa para decorar livros inteiros. NO entanto, incapazes de afeto, de amar e ser amados.
O dom extraordinário do olfato leva Grenouille a criar perfumes para se assemelhar a outro ser humano. Sem cheiro, G. provoca susto, repulsa. O nome do personagem quer dizer, em francês, “sapo”, símbolo arquetípico de transformação e da sexualidade. O sapo tem, como curiosidade, um poder de adaptação formidável. Por conta de sua imobilidade (uma defesa), pode ser cozido em água, se a temperatura aumentar gradativamente, embora salte ao ser colocado em água fervente. Metáfora importante ao se pensar no processo de auto-destruição: é sempre aos poucos que se abraça um vício, se arrisca a vida em bravatas, ou há desistência quando se deveria lutar.
Grenouille mimetiza gestos e se submete a humilhações e provações, físicas e psíquicas, quase insuportáveis. Há uma pobreza de pensamento, sentimento e no uso da linguagem.
Vai a busca do perfume poderoso, matando belas jovens virgens (Eros encarnado). Domina, mas não sabe o que fazer com o dominado. É adorado, ao atingir o que alcança, o poder de ser amado e não sabe corresponder. Ele próprio é máscara, “nuvem aromática” roubada a Eros, a embaçar o juízo dos homens. Como Prometeu, tem a chama divina, por “infinito refinamento.”
Grenouille experimentou a solidão total, numa caverna-útero, aquém da vida, a viver pura sensação e fantasia. Experimentou o domínio dos homens, como se estivesse além dos mortais, sendo ele um deus. Não lhe restou lugar para existir, interna ou externamente. Impossível viver dentro de si com suas fantasias, impossível viver fora de si à custa de fascínio e sedução. “De repente (Grenouille) soube que jamais encontraria satisfação no amor, mas tão-somente no ódio, no odiar e no ser odiado” (p.243).
Grenouille quer esta experiência, de odiar e ser odiado. Talvez assim se humanizasse. Mas este gesto também lhe foi negado.
Seu ser não é “visto”, “reconhecido”. Grenouille, após atingir o ápice do seu gênio, é esquecido. Final fabuloso, embora psiquicamente verossímil!
Serviço
Título: Perfume, a história de um assassino
Direção: Tom Tykwer
Duração: 147 mim
Gênero: Ficção
Onde: Hoje, na Sede Campestre do Centro Médico
Horário: 15 horas
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Maria Luiza Salomão é psicóloga, do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e membro da Academia Francana de Letras |
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