Sobretaxa?


| Tempo de leitura: 5 min

Leio pronunciamento de alto dirigente político congratulando-se com o governo sobre efeito benéfico para a indústria de calçados, gerado, segundo ele, pela imposição de sobretaxa sobre o calçado chinês.

 

Presume se que um político de alto escalão tenha informações de fontes sem qualquer sombra de suspeita e que também disponha ele de visão para avaliar os efeitos de certas medidas que surtirão efeito a médio e longo prazo.
É nisso que se resume a questão toda. O simples fato da China não ter se manifestado sobre o assunto ainda não quer dizer que o fato foi aceito. No comércio internacional, a não ser em casos muito específicos e de grande alcance, as medidas são tomadas, avaliadas e combatidas só depois de muita reflexão e projeções sobre todas as variantes envolvidas.


O fato que deixa o Brasil numa posição vulnerável é que a China se tornou o parceiro comercial que mais importa do Brasil. A indústria de calçados, tanto brasileira como a chinesa, no cômputo geral das exportações e importações, não representa quase nada. Bastará algum funcionário do partido comunista chinês levantar a questão, com argumento, que o Brasil está prejudicando a região dele, com os 'clusters' da indústria de calçados que há na China e problema será criado.


O governo chinês já mandou sinais para a Vale do Rio Doce, que não gostou do aumento do preço dos minérios. Fez isso ainda em tom suave, como querendo dizer "não façam isso rapazes!". E eles não brincam em serviço, como demonstraram com os quatro funcionários australianos do Rio Tinto, a concorrente da Vale do Rio Doce na mineração, condenados a longas penas de prisão por 'espionagem e busca de informações', o que pode significar "tudo" ou "nada" na ideologia comunista.


O mais interessante é que estamos olhando os produtos chineses como vilões enquanto os nossos problemas estão aqui, entre nós e nenhum político tem interesse, – ou melhor, se atreve – em falar neles. Alguém lembra como antes da eleição para o segundo mandato de Sua Excelência, se trombeteava e declarava como prioridade do novo governo a reforma tributária, reforma da CLT e a reforma sindical para melhorar a competitividade na arena global dos produtos brasileiros?


O governo está terminando – graças a Deus –, sob aplausos da maioria da nação, pelo menos nas pesquisas (aliás, conhecem alguém que já foi entrevistado por algum instituto de pesquisa de opinião? Eu nunca encontrei ninguém...) e nada, absolutamente nada, foi feito. O que também não estranho. Depois de tantos escândalos e desmandos quem é que iria promover e promulgar a nova, reformulada, legislação? A elite política tão desmoralizada que representa a nação? Que absolve todos os seus pares, seja lá de que sejam acusados?


Mas voltemos aos chineses já que sobre os políticos há pessoas muito mais qualificadas para comentar o comportamento ou a falta de. Já que não nos podemos defender da invasão de produtos bem mais baratos e hoje em dia também muito bem feitos, qual é o caminho de sobrevivência a seguir?


Há vários, mas todos eles esbarram principalmente na falta de visão, ou no dizer dos americanos 'wishfull thinking', algo como "tomara que seja!": tomara que alguém decida algo em nosso favor; tomara que não precisemos mexer naquilo o que fazemos há tanto tempo e já apreendemos fazer; tomara que não venham com muitas inovações que nos custariam investimentos, treinamentos e toda sorte de dores de cabeça!


Muita gente ainda não percebeu, mas já se passaram quase dez anos completos do terceiro milênio, mas a mentalidade é ainda da primeira metade do século passado! Só as mudanças na área da comercialização são de assustar. As mudanças nas estruturas de distribuição, com crescente poder de negociação das grandes organizações, das grandes cadeias de lojas que já apreenderam a se abastecer de outras fontes que não a indústria de calçados brasileira. O comércio eletrônico está ai, cada vez mais atuante e presente!


Quando, há três anos, o adido comercial da embaixada chinesa proferiu uma palestra em Franca, ao ser perguntado o que aconselharia aos francanos para sobreviver no mundo calçadista global, respondeu que o melhor seria mudar as fábricas daqui para a China. Embora muita gente tenha se sentido ofendida, os grandes grupos como Azaléia, Alpargatas ou Dilly, já estão lá!


Eu, pessoalmente, apostaria na Índia com o seu maior rebanho bovino, equino e caprino do mundo. O nosso folclore nos diz que em número de bovinos é o Brasil. Mas o Brasil está em primeiro lugar em desfrute do rebanho.

Em número de cabeças, a primeira é a Índia. É verdade, não matam as vacas, mas o que será que fazem com os touros? E com respeitável programa do governo para pôr a indústria de couros e calçados em primeiro lugar no mundo, será um competidor e tanto.


Depois destas considerações só me resta confirmar o que disse: sobretaxa é paliativo. Nossos problemas estão em outro lugar, estão entre nós e, lidando com nosso maior parceiro no comércio exterior atualmente, para quem os contratos assinados não passam de cartas de intenções (perguntem à Embraer!), toda cautela e cuidado é pouco.


Que sirva de alerta o que ouvi de um fabricante de calçados que mudou a fábrica dele de Taiwan para a China Continental. quando perguntei como pode ser isso, já que volta e meia uns atiram nos outros: 'Política é política, business é business!' Ficou claro?

 

NA CHINA
Produtores italianos de máquinas para curtumes e indústrias de calçados das marcas Atom, Cerim e Camoga assinaram acordo de cooperação para atender as necessidades do mercado global, mas com foco especial na Ásia. O mais significativo passo nessa união é onde as três companhias decidiram consolidar a capacidade de produção já existente na China.

 

Edson Arantes
Jornalista – edson@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários