Paixão e paixões!


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Maria Luiza Salomão


 

(a paixão sentimental) ...é uma atitude reflexa, um espelhismo, é razoável que sempre nos pareçam mais intensas, mais belas e melhores as relações dos outros do que os nossos próprios amores; acontece que destes nós conhecemos bem a aspereza do real, ao passo que das paixões alheias podemos manter intacta a sua aura enganosa. Mas quando aproximamos delas o microscópio, como de uma gota de água, o que vemos é um estranho fervilhar de monstruosidades.” Paixões, de Rosa Montero.

Há na Paixão amorosa, sentimental, algo que todos nós reconhecemos. Há nela um “quê” do “pathos” que origina a palavra “patológico”. Quando apaixonados, sentimentalmente, estamos doentes de uma doença da qual não queremos nos curar, como diz Rita Lee em uma das suas canções.

Há quem reclame veementemente por não ter mais “paixão” na sua vida.

A II Bienal, a realizar-se entre os dias 13/16 de maio deste ano, promoção e organização da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, traz como temática Paixão e...Paixões! (o plural de ponta-cabeça! Em outra cor!!).

O tema vai abranger paixões nacionais: samba, futebol e cerveja. E também a Paixão pela Psicanálise. E muitas outras paixões, não somente a sentimental.

PROGRAMA: Paixão por realizar. Paixões claras: da amizade; O avesso das Paixões anti-Paixão/Não-paixão/Vazio da paixão. Paixão nas Artes e Paixão em Psicanálise (cursos paralelos dentro da Bienal). Representações Apaixonadas, Paixões Representadas. A Paixão no Tango. Paixões obscuras: Ciúme, Inveja, Vingança. Paixão no conhecimento/anti-conhecimento/não-conhecimento. A Paixão no futebol. Morrer de Paixão/Viver de amor. Etimologia das Paixões.

Interessante o programa encerrar com a Etimologia das Paixões, depois de visitada em vários planos do sentir e do pensar. Se nós todos temos, entranhado, “paixões” como combustível na vida, é freqüente a bagunça que resulta no modo como tentamos velá-las, ou revelá-las.

Confundimos, muitas vezes, a Paixão “da hora” e a catalogamos, segundo conveniências. A Razão, no mais das vezes, é submetida, vencida, esmagada pelas Paixões. Mas é preciso reconhecer que, sem elas, aprendemos pobremente. A Paixão tem uma potência e uma intensidade que impede a própria percepção de como fomos por ela possuídos. Paixão por uma Ideia, ou Ideal, por alguém, ou ainda pela busca de Beleza, de Bondade, de uma Ética que nos permita viver mais e melhor.

Reféns da Paixão nós patinamos em pântanos, apenas sentimos. Dominados por ela, é ela quem fala, nos vira do avesso, nos alucina e a tomamos como um “tudo”. Na calmaria dos ventos tumultuosos provocados pela Paixão, vislumbramos cores, sons, formas que não víamos, não ouvíamos, não tocávamos (de certa maneira especial), antes de sermos por ela vividos. Retornamos mais ricos, pós-vendaval.

Por isso falar de Paixão ou de Paixões, é falar do mistério que Chico Buarque cantou: “o que será que será?”. Paixão é tema eterno e fugaz, pessoal e coletivo. A letra do Chico Buarque indaga a existência do “claro enigma”:

Suspiros pelas alcovas/ sussurram em versos e trovas/ combinam no breu das tocas/ anda nas cabeças e anda nas bocas/ acendem velas nos becos/ falam alto pelos botecos/ gritam nos mercados./ Está na natureza/ não tem certeza/ não tem conserto/ não tem tamanho./ Juram os profetas embriagados/ está na romaria dos mutilados/ na fantasia dos infelizes/ no dia a dia das meretrizes/ no plano dos bandidos dos desvalidos..(.está) em todos os sentidos...

(a paixão é) o que não faz sentido. O poeta não define o mistério, é vivido por ela, ou elas!
“todos os avisos não vão evitar/ todos os risos vão desafiar/ todos os sinos irão repicar/ todos os hinos irão consagrar/ todos os meninos vão desembestar/ todos os destinos irão se encontrar/ mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá/ olhando aquele inferno vai abençoar/ o que não tem governo nem nunca terá/ o que não tem vergonha nem nunca terá/ o que não tem juízo...

O subtítulo da Bienal é inspirado, como o poeta: “viagem às nascentes do sentido”. Como não conferir esta II Bienal?
- “Só não vai quem já morreu”...”tá ruim da cabeça ou doente do pé”.
Até lá!

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