‘Você chega num ambiente que, de verdade, é um inferno.’


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SANTUÁRIO EM ITURAMA- Atrás da Igreja de Nossa Senhora de Fátima (foto) fica a casa paroquial onde padre Dé reunia os jovens e tentou fundar um seminário nos anos de 1996 e 1997. É apontada por uma das vítimas como local onde ocorreram abusos
SANTUÁRIO EM ITURAMA- Atrás da Igreja de Nossa Senhora de Fátima (foto) fica a casa paroquial onde padre Dé reunia os jovens e tentou fundar um seminário nos anos de 1996 e 1997. É apontada por uma das vítimas como local onde ocorreram abusos

Levado pela mãe desde pequeno à igreja católica, um rapaz francano começou a ajudar nas missas com apenas dez anos. A ligação com a comunidade católica despertou o desejo de ser padre. Sem namorar, viveu a adolescência focado nesse sonho. Na Paróquia São Vicente de Paulo teve oportunidade de assistir a celebrações do padre José Afonso Dé e tinha nele um modelo a ser seguido porque achava suas homilias interessantes. Depois de conviver um mês e meio com o religioso no seminário de Iturama (MG), para onde foi levado pelo próprio padre Dé, disse que a admiração virou repulsa. Aos 21 anos, em 1996, ingressou no seminário, mas disse ter ficado estarrecido com o que presenciou no local. Segundo ele, o espaço era palco de verdadeiras orgias. Ele disse que em diferentes ocasiões, padre Dé tentou beijá-lo e passar a mão em suas partes íntimas. Ele não permitiu. No tempo em que permaneceu no seminário, disse ter presenciado namoros entre os seminaristas e visto meninos dormirem no mesmo quarto que padre Dé. Para ele, o religioso é “um monstro, um destruidor de sonhos”. O francano abandonou o seminário. Ao regressar a Franca, contou o que tinha vivido, inclusive a autoridades religiosas, mas não teve crédito. Desistiu de ser padre, desistiu da igreja católica, desistiu de seguir alguma religião. Hoje, com 35 anos, é casado há cinco e pai de dois filhos.

Comércio da Franca - Como nasceu o sonho de se tornar sacerdote?
Homem -
Tudo que fiz na minha vida foi destinado ao seminário. Até 23 anos era virgem, não tinha vontade de namorar, de ter uma vida para casar, queria seguir a vida religiosa, pregar a palavra de Deus. Meu sonho era ser padre.
 
Comércio - Como foi a decisão de ir para o Seminário aos 21 anos?
Homem -
O padre Dé me buscou em casa e me levou para o Seminário Menor em Iturama. Fui lá morar com ele, só que achei que ia encontrar um ambiente de oração e de estudo, que é o que a gente sonha. Me vi num lugar onde havia pessoas que não tinham vocação alguma, onde você via homens se abraçando, se beijando, vivendo como namorados. Você não chega num ambiente de oração, você chega num ambiente que, de verdade, é um inferno.
 
Comércio - O que você viu exatamente?
Homem -
Havia uma casa com vários quartos e a clausura, onde ficam os seminaristas e ninguém podia entrar. No quarto em que eu ficava havia mais seminaristas e via eles se abraçarem, se beijarem, ficarem como se fossem dois namorados, vi pessoas transando do meu lado. Tinha vários seminaristas da época que hoje são padres, que passaram a mão na gente na cama enquanto a gente estava dormindo. Por várias vezes fui até o quarto do padre Dé falar alguma coisa e ele passou a mão em mim, tentou me beijar, tentou pegar no meu órgão genital e isso é fato, aconteceu comigo e com todo mundo que esteve lá. Outros que estiveram lá comigo e hoje são padres viram isso acontecer. Pode ser que eles defendam o padre Dé porque estão hoje na mesma comunidade.
 
Comércio - Como o padre Dé agia com os seminaristas?
Homem -
Ele tinha um quarto só para ele. Na maioria das vezes vi que algumas pessoas que estavam há mais tempo lá iam para o quarto dele. Outras iam porque precisavam de uma instrução, de um remédio, de conversar alguma coisa, perguntar alguma coisa e surgiam os acontecimentos.
 
Comércio - Você chegou a comentar de um menino de 14 anos que teria sido companheiro dele...
Homem -
Vi por várias vezes um menino que morava lá em Iturama levar o colchão dele para o quarto do padre Dé. Não vi os dois transarem, os dois terem relação, mas vi por várias vezes ele ir para lá. Mas como ele fez esse tipo de coisa comigo, a gente imagina que ele pode ter tido uma coisa maior com o menino também. Você via que o menino era completamente apaixonado pelo padre Dé, podia ser como pai, podia ser como uma pessoa que despertou alguma coisa nele. Isso não tenho como comprovar, mas por várias vezes vi ele ir para o quarto do padre Dé.
 
Comércio - Como o padre Dé abordava vocês?
Homem -
Não posso dizer pelos outros, mas às vezes eu estava conversando no quarto e ele estava sempre de roupão. Ele encostava mais na cama para ficar mais à vontade e vinha conversando com a gente, falando “ah, não fica assim não porque você tem o seu paizão aqui”, ele te abraçava realmente começando fraternalmente, mas depois a coisa ia ficando mais forte, ele ia fungando na gente, ia encostando, tentando beijar o rosto, aí beijava o pescoço, chegando para o lado da boca e você se esquivava. Aí ele está já com a mão correndo na perna, tentando pegar o seu órgão genital. Primeiro ele vai realmente como um amigo, como um pai, mas depois ele se esquiva para esse lado. Ele, por duas vezes, tentou me beijar, tentou pegar meu órgão genital. Com alguns deveria dar certo, mas preferi vir embora.
 
Comércio - Como você reagia aos ataques do padre Dé?
Homem -
Comigo foi pouco pelo seguinte: não aceitei, tentei continuar no seminário porque imaginei que se suportasse por um mês poderia ir para o seminário maior em São José do Rio Preto ou Ituiutuba e às vezes podia continuar no seminário, que era meu sonho. Mas como vi que a coisa era frequente, que isso ia acontecer várias vezes, preferi ir embora para casa. Quando ele tentava atacar ficava com medo porque você não tem sua família, você não tem ninguém por perto, você não tem a quem recorrer porque está a quase 400 quilômetros longe de casa, mas no começo você fala “para com isso, não faz isso” e aí ele usava argumentos “você não quer ser padre? Nós somos padres, nós somos uma família, somos um pelo outro”, então você fala “para” e sai de perto dele. É lógico que ele não força porque não é bobo. Se tentasse fazer algo forçado com alguém, seria denunciado na hora.
 
Comércio - Para quem contou sobre os ataques?
Homem -
Na época falei para várias pessoas. Contei para o pároco da paróquia, o bispo e amigos da catequese. Conversei, mas como ninguém acreditou em mim, preferi ficar calado. Acredito que eles ignoraram porque era conveniente para eles, o que não é o correto porque se uma pessoa está falando uma coisa, vamos supor que ela tenha aumentado, mas algum fato é verdade. Eles tinham de pensar que na época eu era uma pessoa que tinha um sonho de participar da igreja católica, mas a igreja católica mesmo virou as costas para mim. Se naquela época eles tivessem advertido, expulsado ou feito qualquer coisa com ele, não teria feito o que fez com esses meninos hoje.
 
Comércio - Antes de ir para o seminário, como era seu contato com o padre Dé?
Homem -
Não tinha muito conhecimento dele. Às vezes via ele em Franca fazendo uma missa, que era muito engraçada. Quem conhece o padre Dé sabe que as missas dele são muito engraçadas porque ele esbraveja, fala as coisas, então ele se torna uma pessoa legal para a gente e você fala: “quando for sacerdote, posso ter essa direção, ser engraçado, falar as coisas”. Mas aí quando você vê na prática é um monstro, é um sei lá que palavra usar para classificar uma pessoa dessas. Porque uma pessoa que mexe com uma criança ou com o sonho de outras pessoas é um monstro, é um destruidor.
 
Comércio - Quando você voltou, qual o questionamento da família?
Homem -
Foi muito difícil porque não queria conversar muito, já tinha tentado falar e ninguém me ouvia. Meu pai e minha mãe também tentavam esquecer para ver se eu não sofria mais, mas fiquei muito perdido porque até então eu conhecia uma igreja católica, era catequista, ia à missa e, de repente, acabou tudo. Sumi da igreja, é lógico. Tentei até outra religião porque você tem uma carência por Deus, mas não deu certo. De repente, acaba tudo e você não tem mais onde se segurar. Fiquei um tempo vagando. Depois consegui o trabalho no qual estou até hoje e, graças a Deus, conheci minha esposa e casei. Tive um direcionamento bom. Mas se eu não tivesse uma base, que era minha família, não sei o que tinha acontecido comigo naquela época.
 
Comércio - Na sua opinião, o que deve acontecer com o padre Dé?
Homem -
Ele deve pagar pelo que ele faz e fez. Acho que ele destruiu muitos sonhos, ele não podia estar mais na igreja católica porque a igreja católica em si, pelo que aprendi, é uma igreja boa, mas a falha é aceitarem esse tipo de gente.
 
Comércio - Você acha que ele tem algum distúrbio?
Homem -
Não. O padre Dé é muito inteligente mesmo. Ele não tem distúrbio nenhum, é condição.

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