Com o uso de muitas metáforas, palavras rebuscadas e respostas que parecem ensaiadas, a dirigente de ensino da regional de Franca, Ivani de Lourdes Marchesi de Oliveira, é o tipo de mulher polêmica, que não leva desaforo para casa. Casada, mãe de duas filhas e no comando de mais de 47,6 mil estudantes em 67 escolas de dez cidades da região, incluindo Franca, Ivani demonstrou nesta entrevista ser uma pessoa firme e que defende sua verdade com unhas e dentes.
Na manhã de mais um dia de trabalho, a francana por opção recebeu a reportagem para falar um pouco de sua carreira e do trabalho à frente da Diretoria Regional de Ensino, órgão vinculado à Secretaria Estadual de Educação. Ela é dirigente desde 2003, antes atuava como substituta. Ivani não revela sua idade, mas disse ter 45 anos de serviços somente na rede estadual.
Na sala de cortinas laranjas, com vasos na porta e enfeitada com diversos quadros ganhos, segundo ela, de presente de professores, diretores e alunos, Ivani Marchesi, como é mais conhecida, disse que nasceu em berço simples e aprendeu a gostar de livros e da escrita com o pai poeta. A mãe era dona de casa. “Fui criada no meio de rodas, cantigas e poemas. Meu pai era poeta. Aprendi a ler pelas mãos do meu pai”.
Professora de educação básica por formação e mais tarde professora acadêmica, a dirigente é também escritora. Tem quatro livros editados e prepara a publicação de outros três.
Com um vestido azul de alças, tranças no cabelo seguras por um prendedor em forma de borboleta e uma medalha de São Bento no pescoço, Ivani deixou a calmaria e ficou com os nervos exaltados em questão de segundos pelo menos durante dois momentos da entrevista. Interrogou a reportagem no mínimo três vezes.
De forte espiritualidade, Ivani diz não temer a morte e muito menos a saída do cargo de dirigente. Segundo ela, voltaria a ser professora sem problemas. “Já deixei tantos cargos, esse seria só mais um”. Acompanhada de duas assistentes ao longo de toda entrevista, ela disse que só consegue administrar a diretoria e seus quatro mil professores graças ao trabalho de sua equipe. “O sucesso vem deles”, disse em referência a 70 pessoas que trabalham ao seu lado, no prédio da Diretoria de Ensino (antigo Cefam), na Vila Imperador.
Questionada por mais de uma vez, negou veemente perseguir seus subordinados e disse nunca ter se desentendido com qualquer professora ou diretora. “Não é da minha índole. Não sou mulher de discussão. Estou nesse cargo para acrescentar, jamais para coisas mesquinhas”.
Comércio da Franca - A senhora passou por vários cargos na área educacional, mas começou como professora. Como a dirigente vê a valorização do professorado atualmente?
Ivani Marchesi - Os professores são reconhecidos com o maior respeito. Eu particularmente reverencio essa rede. Eles colocaram essa diretoria de ensino, nas avaliações do governo, à frente da média do Estado. Só por isso eu teria que tirar o meu chapéu, mostrar o meu respeito pelos professores.
Comércio - Deixaria o cargo de dirigente para voltar a ser professora?
Ivani Marchesi - Por que não?
Comércio - No próximo ano, o comando do governo estadual deve mudar. A senhora tem medo de perder o cargo de dirigente?
Ivani Marchesi - Quando entrei, já sabia que iria sair um dia. Não tenho medo nem da morte, porque a morte não existe. Você acredita na sobrevivência? Eu vou continuar viva, em alma e em espírito.
Comércio - A senhora pensa em deixar o cargo?
Ivani Marchesi - Não, mas sei que um dia isso irá acontecer. Pode ser amanhã, pode ser daqui a 15 dias, pode ser daqui a uns três anos. Um dia terei de sair. De qualquer maneira, tenho a consciência de que fiz bem meu papel. Pode escrever, vou sair com a mesma alegria com que entrei, porque sou eminentemente alegre. Agora, não vão dizer que estou anunciando a minha saída, por favor. Porque seria falso. A saída e entrada de um dirigente é rotina administrativa. Sou estruturada, já perdi pai e o dia que eu perder um cargo, se eu perder, estarei em outro. Não considero que seja perda, considero que seja mudança. Não pretendo permanecer em um status a vida inteira.
Comércio - Como é a rotina da dirigente de ensino Ivani Marchesi?
Ivani Marchesi - Acredito que é a rotina de todo dirigente.
Comércio - Mas o que faz uma dirigente regional de ensino?
Ivani Marchesi - Tem que ter um cronograma muito dosado. Tem as atividades internas, que não podem parar e dependem do meu despacho. Tem as atividades externas nas quais recebo o retorno do que faço. Nessas andanças, percebo que a rede não tem pejo de me criticar quando necessário e acho isso bom. E de me elogiar também. Na minha porta tem sempre flor, até quando erro recebo flor.
Comércio - A senhora falou em críticas. Como a dirigente lida com elas?
Ivani Marchesi - Muito bem. Para mim, isso não me melindra, não me machuca. Porque seria tola achar eu que agrado a gregos e troianos. O maior exemplo de figura no Ocidente foi Jesus e não agradou a todos.
Comércio - Em muitas ocasiões, presenciamos professoras fazendo críticas à senhora. Como se sente?
Ivani Marchesi - Nunca me senti odiada. O ódio não faz parte do meu coração. Não vejo ódio por onde passo, mesmo porque alguém tem que ser dirigente.
Comércio - O que é mais difícil no trabalho da dirigente de ensino?
Ivani Marchesi - É ver que um aluno não aprende.
Comércio - Existem muitos casos na rede estadual de Franca e região de alunos que não aprendem?
Ivani Marchesi - Felizmente não. Franca neste ano vai zerar o analfabetismo de 1ª a 4ª série.
Comércio - Houve um caso em abril de 2006 do aluno TJB que não sabia ler e escrever mesmo estando na 7ª série do ensino fundamental. Ainda tem casos semelhantes nas escolas estaduais?
Ivani Marchesi - Isso dói. Isso é difícil. Não existe mais, esse menino não está mais conosco. Também não vou tocar mais nesse assunto, porque na época achei que foi muito triste para ele se tornar emblema da não aprendizagem. Vamos deixar essa parte, não vamos expor o menor e vamos continuar a nossa conversa.
Comércio - Mas pode haver outros casos parecidos...
Ivani Marchesi - A mídia nunca levantou.
Comércio - As professoras que estão na rede têm capacidade para evitar o não aprendizado de alunos com maior dificuldade?
Ivani Marchesi - Têm e recebem apoio para isso. Aliás, as aulas de recuperação já foram atribuídas neste início de ano para que isso não seja deixado no decorrer do bimestre. Mas a entrevista não era sobre a minha vida pessoal?
Comércio - Também, afinal a senhora não concorda que a vida pessoal e profissional se misturam e a da senhora é cercada por polêmicas?
Ivani Marchesi - Vou dizer uma coisa para você. Não sei se é virtude ou defeito, mas sou muito estruturada. O que me dói, dói três minutos. Depois vou atrás de saber a pertinência, o que pode me acrescentar. Por isso, não tenho mágoa, não tenho ódio e nem rancor.
Comércio - De onde vem toda essa estrutura?
Ivani Marchesi - Acho que é da minha raiz. Sou muito firme. Tive a educação mais livre possível, mas me mostraram uma condição principal do ser humano: ter um lado, o lado da verdade. Pode ser que a verdade aos meus olhos não esteja como a verdade de todos. Mas se acredito, tenho por obrigação defender. Até escrevi: “Não regresses das palavras se as disseres verdadeiras. Que Oxalá te bendiga as horas da primeira à derradeira”.
Comércio - Em razão dessa firmeza, muitos professores tem um pouco de receio da senhora...
Ivani Marchesi - Não sei disso. Porque aqui é tudo tão aberto. Não sei, mas cada um diz o que quer e pensa o que pode.
Comércio - A senhora é uma dirigente autoritária?
Ivani - Não, mas tenho autoridade.
Comércio - Alguns professores e diretores de escola falam que há perseguição por parte da senhora contra aqueles que criticam ou discordam de sua maneira de dirigir o ensino estadual na região. Até onde isso é verdadeiro?
Ivani Marchesi - (Risos....) Não é da minha índole. Não fui criada para isso. Estou nesse cargo para acrescentar, jamais para coisas mesquinhas.
Comércio - Mas já houve muitas discussões da senhora com diretores de escola?
Ivani Marchesi - Nunca, nunca, me prove.
Comércio - A briga da senhora com a diretora Dora Bordignon, da escola “Caetano Petráglia” virou caso de polícia (Em junho 2007, Dora teria chamado Ivani de negrona, ela prestou queixa de racismo e injúria).
Ivani Marchesi - Aliás, esse pedaço não quero que saia porque aí minha imagem pública estaria sendo devastada. Nunca discuti com ninguém. Eu nunca dei entrevista para vocês a esse respeito.
Comércio - Mas houve a briga...
Ivani Marchesi - Se você soube, não foi da minha parte. Eu não misturo vida pessoal, não trago minha vida pessoal a público. Daí, eu achar que esse assunto não interessa.
Comércio - Mas a discussão com uma diretora da rede não faz parte de sua vida profissional?
Ivani Marchesi - Não. Nunca discuti com ninguém. Isso eu nego mesmo. Isso já resolvi na instância apropriada.
Comércio - Então, a senhora acaba de me confirmar que discutiu.
Ivani Marchesi - Não discuti. Não sou mulher de discussão. Isso já resolvemos em instância apropriada e só converso disso em instância apropriada. Eu não trago isso a público nem permito que se traga. Minha vida pessoal é minha vida pessoal.
Comércio - Como essa, existem outras discussões ou perseguições a diretoras ou professoras?
Ivani Marchesi - Perseguição? Você vai ter que me provar, porque eu não persigo ninguém. Você vai trazer o nome do perseguido. Porque quero ressarcir todo o erro que fiz. Você está muito preocupado, fica me dizendo que estou perseguindo alguém, quero ver você me provar. A quem eu teria perseguido? Perseguir é crime. Quem eu persegui? Vamos, personalize (a dirigente se exalta).
Comércio - Justamente por esse tom autoritário, as professoras que se sentem perseguidas não querem ser identificadas.
Ivani Marchesi - O que é perseguição? É tomar as aulas delas?
Comércio - Não sei. É justamente o que estou perguntando.
Ivani Marchesi - Depois você vai dizer que eu me altero, mas você gosta de colocar palavras na minha boca. Eu não regresso daquilo que digo. Eu não altero daquilo que faço. Vou fechar essa parte como você agora: não estaria aqui há seis anos se fosse dada a perseguição. Nenhum funcionário ou dirigente do Estado é tão vil e mesquinho que persegue. Estou aqui para acrescentar, mesmo porque sou educadora, mas cada um pensa o que pode e fala o que quer. Todos têm a liberdade de expressão.
Comércio - Se elas não denunciam a senhora, não seria também por medo de represálias?
Ivani Marchesi - Não sei. Pergunte para elas. É uma pena, porque eu não tenho medo de represálias.
Comércio - Outra polêmica envolvendo a senhora diz respeito a boatos de plágios em seu trabalho de tese de mestrado. Isso é verdadeiro?
Ivani Marchesi - Lembro Malba Tahan referindo-se a eles: “Os cães latem e a caravana passa...”
Comércio - A senhora não respondeu.
Ivani Marchesi - (pausa) Se você continuar com essas perguntas a gente parar por aqui. O que tenho para dizer a este respeito já disse.
Comércio - Outro tema polêmico diz respeito ao caso de nepotismo na diretoria de ensino envolvendo a filha da senhora. (A filha de Ivani foi a escolhida para ocupar o cargo de assessora jurídica da Diretoria)
Ivani Marchesi - Não foi nepotismo. Estava tudo dentro da lei. Ela foi exonerada cerca de 12 a 15 dias antes da decisão do governo estadual de proibir parentes em cargos de confiança e não teve relação. Ela que optou por sair para ter mais tempo de estudar. Ela nunca ocupou cargo e sim função jurídica por ter sido a única que se apresentou para ocupar a vaga. Além disso, não havia restrição quanto ao grau de parentesco.
Comércio - Os professores estaduais recentemente fizeram uma greve para lutar por melhores salários e condições de trabalho. Para a senhora, salário dos professores é compatível com o trabalho realizado? Como a senhora vê o movimento grevista?
Ivani Marchesi - Não posso discutir política salarial, porque não tenho meios de intervir nisso, mas quando era professora me sentia reconhecida, valorizada. Tudo o que fiz, fiz com muita paixão. Sobre greve, cada coisa no seu tempo, cada um em seu papel.
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