As mudanças climáticas vieram para ficar e atazanar cada vez mais a nossa placidez que vem do tempo em que a meteorologia do rádio sinalizava quase sempre ‘tempo bom’
Na quarta-feira, a manchete de primeira página de O Globo, do Rio, não foi uma notícia afirmativa como é hábito na imprensa, mas uma interrogação: “Cadê o plano de emergência?”, perguntou o jornal, expressando o sentimento de perplexidade dos cariocas diante do caos na cidade com as chuvas da véspera.
Esse tipo de cobrança também foi feito neste verão em São Paulo, em São Luiz do Paraitinga e outras cidades afetadas pelas chuvas. E continuará a ser feita, todos os anos, na maioria de nossas regiões se providências estratégicas consistentes não forem adotadas imediatamente. Não para se livrar das chuvas de agora, mas de 2011, 2012... Quem pensa que este é um ano “atípico”, como autoridades se apressaram em dizer no início do último verão, poderá cair do cavalo nos anos seguintes. As mudanças climáticas vieram para ficar e atazanar cada vez mais a nossa placidez que vem do tempo em que a meteorologia do rádio sinalizava quase sempre “tempo bom”.
As conseqüências das inundações e deslizamentos serão potencializadas se ações preventivas coordenadas entre órgãos do governo e a população não forem traçadas já para corrigir os erros do passado em relação à ocupação do solo. Caso contrário, continuaremos a assistir tragédias anunciadas, como a de Niterói em que casas foram construídas sobre um lixão.
No terremoto recente no Chile, número pequeno de pessoas morreu se comparado à sua magnitude porque o país se preparou, com a conscientização da população e infra-estrutura. O mesmo não ocorreu no Haiti com um terremoto de intensidade menor. O que mata não é o evento, mas os seus efeitos, ou a forma como o homem lida com o ambiente onde habita e circula. Portanto, é perfeitamente possível minimizar os efeitos.
Ações regionais
Em Araraquara, a Defesa Civil quer instalar uma estação meteorológica com o objetivo de as medições locais auxiliarem no trabalho preventivo do órgão em relação aos problemas climáticos enfrentados na cidade, segundo informa o jornal Tribuna Impressa. Pode também beneficiar a agricultura do município. A intenção é boa. Ações desse tipo poderiam ir além numa gestão regional, com a junção de esforços dos municípios próximos e articulação com redes estadual, nacional e global. Terminou a era da filosofia “cada um para si e Deus para todos”. O mundo é uma grande cidade.
Terremotos
2010 registra uma seqüência expressiva de terremotos no planeta na faixa dos 7 graus ou mais da escala Richter. Apesar disso, não há comprovação científica de que os tremores estejam aumentando. É preciso esperar para avaliar se a incidência ficará ou não acima da média. Enquanto isso, países como a Turquia fazem planos de emergência à espera do chamado “Big One”, o temido “Maior” dos terremotos, admitido por estudiosos. Tóquio e Califórnia estão entre essas zonas de risco extremo.
Tremor caipira
E por falar em terremoto, terrenos do norte e nordeste do Estado de São Paulo apresentam falhas geológicas que propiciam pequenos tremores, segundo revela a revista “Pesquisa Fapesp” deste mês. A matéria, assinada por Carlos Fioravanti, informa que já foram registrados cerca de 3 mil tremores de até 2,9 graus de magnitude somente na região de Bebedouro, no Interior Paulista, em cinco anos de observações. A explicação é que em poços de 100 metros de profundidade, a água infiltra entre os blocos da rocha e precipita o deslizamento dos que já estavam por se soltar naturalmente, o suficiente para causar trincas em paredes de casas.
Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br
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