Cantiga por Luciana


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Setembro de 1969. Evinha vencia o 4º Festival Internacional da Canção com Cantiga por Luciana, de Edmundo Souto e Paulo Tapajós. Fiquei alucinada com letra e melodia.

Tão fascinada que ousava, numa época cheia de preconceitos e tabus, vaticinar o futuro dizendo meio brincando, meio séria, não saber se iria casar, mas que teria uma filha para chamá-la Luciana. Casei, 'engravidei-me'. Prenhez difícil. Desde o começo perdia sangue como se estivesse menstruada. Procura médico aqui, pergunta ali, fui parar no consultório de laureado obstetra da cidade responsável por terrível diagnóstico: aborto espontâneo, caso de internação, curetagem. Entregou-me papel, especificando as providências hospitalares. Me encontraria na Santa Casa na manhã seguinte.

Cheguei em casa abalada, triste e cabisbaixa. Era minha primeira gravidez, eu queria muito o bebê e fazia meus cálculos: três falhas - naquela época não se falava em semanas, já tinha sexo definido, tinha coraçãozinho, olhos. Foi uma choradeira só: a gravidez não era exclusividade minha, mas da família inteira. Palpite aqui, palpite ali, sugestão: que eu procurasse um obstetra recém chegado à cidade. Juízos femininos afirmavam sua competência. Era moderno, revolucionário, tinha ficha de bons serviços, as pacientes falavam muito bem dele. Fui. Naquela primeira consulta estava tímida, insegura, emocionada e ele me ouviu. Ele me viu. Ele me escutou. No final, deu o parecer: concordava com o diagnóstico do colega, as evidências levavam para aquele procedimento. Mas – bendito mas – acreditava na minha sensibilidade. Sugeria esperar alguns dias, durante os quais eu ficaria sob a proteção de poderoso antibiótico para evitar infecção. No final desse tempo, faria novo exame com os jurássicos aparelhos da época, como a corneta que eles colocavam sobre nossa barriga para auscultar o bebê: o ultrassom somente entraria de coadjuvante no final da década de oitenta. Dez dias, voltei. E ele ouviu o coraçãozinho bater disparado, como a comemorar sua delicadeza e a persistência materna. Sangrei pelos outros meses, sem explicação, só suspeitas. Anemia, repouso e um só medo me perseguia: que o bebê não fosse minha Luciana, cujo nascimento se daria no final de abril, naquela época um mês de céus azuis, manhãs ensolaradas, friozinho sutil, entardeceres alaranjados.

Chegou a Semana Santa de 1972. Comportadíssima em casa, malinha pronta. 31 de março, Sexta-feira Santa, recomeçou o sangramento, um martírio. No Sábado de Aleluia, 1º de abril, sem mentira alguma, dava uma pontada na barriga, ia ao banheiro, parecia que meu fígado tinha arrebentado, de tanto sangue que botava para fora. Não existia celular, não tinha intimidade com o médico, somente sabia que estava ausente da cidade. Domingo, 2 de abril, procurei ajuda. O obstetra de plantão era ex-colega dos bancos escolares. Esmiuçou o procedimento: iria fazer toque para dimensionar colo do útero e ver se eu estava em trabalho de parto. Negativo! Ex-colega, embora médico, me examinar tão intimamente? Nunca! A família inteira lá na Santa Casa, me olhava feio porque eu recusava o tratamento. O colega olhava espantado com a atitude recatada, incompatível com meu aparente rompante. Foi quando o desespero já ia batendo, que veio como música benfazeja a notícia que eu queira ouvir, feito um presente de Páscoa: 'Dr. Pádua está chegando!'. Foi feita uma cesariana às pressas e então os episódios hemorrágicos foram justificados: eram provocados pela placenta prévia. Fosse feito toque, a placenta teria sofrido ainda mais, comprometendo a vida de mãe e filha, disseram.

Abraço o médico, grande amigo hoje, agradecendo-lhe com carinho mudo a cumplicidade daquela ocasião. Olho para minha Luciana e choro toda vez que ou lhe canto a música, que é só dela – eu acho – embora não ela tenha os tais 'olhos de mar' da letra, ou quando fecho os olhos e me lembro da beleza do coral cantando-a na cerimônia do seu casamento. Todas as Páscoas são bonitas e de grande significado, mas aquela foi a melhor da minha vida inteira.


CANTIGA
'Manhã no peito de um cantor, cansado de esperar, só. Foi tanto tempo que nem sei, das tardes tão vazias, por onde andei. Luciana, Luciana, sorriso de menina dos olhos de mar. Luciana, Luciana, abrace essa cantiga por onde passar. Nasceu na paz de um beija-flor, em verso, em voz de amor. Já desponta aos olhos da manhã, pedaços de uma vida que abriu-se em flor'. Não é linda? E a mais bonita interpretação é a de Pery Ribeiro.

JUDAS
Segundo vovó, não haveria ressurreição de Cristo, não fosse sua morte, claro. Não haveria morte de Cristo, não fosse Judas. Não houvesse Cristo ressurreito, não haveria Cristianismo. Então tudo - traição de Judas, morte de Cristo, ressurreição - faria parte de um grande plano e combinação prévia no campo espiritual para que a doutrina cristã vicejasse. Daí malhar Judas seria uma heresia e seu maior pecado teria sido o do suicídio. E, nesse ódio todo, como é que fica o perdão cristão, ela dizia?

OVO
Em Santa Catarina, estado de tradições européias, Domingo de Páscoa é muito mais festejado que Natal. Explica-se: a base do Cristianismo é a ressurreição de Cristo, complexo e polêmico episódio, e não seu nascimento. Muitos meses antes da Páscoa as mulheres, quando utilizam ovos, fazem um pequeno furo neles, tiram clara e gema, lavam e os põem para secar. Decoram externamente as cascas ocas com desenhos coloridos depois as recheiam com amendoim coberto de açúcar ou chocolate. Montam cestinhas de vime, que espalham e escondem nos jardins. Chamam as crianças e incentivam-nas a procurar a cesta que leva o nome de cada uma delas.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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