Jovens relatam ataque de 1981


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MEMÓRIA - O cabeleireiro G imita o gesto que diz ter sido feito pelo padre Dé em uma noite de novembro de 1981. Na ocasião, o padre teria entrado no quarto onde ele dormia e tocado seus órgãos genitais. Quando ele acordou, o padre teria pedido silêncio já
MEMÓRIA - O cabeleireiro G imita o gesto que diz ter sido feito pelo padre Dé em uma noite de novembro de 1981. Na ocasião, o padre teria entrado no quarto onde ele dormia e tocado seus órgãos genitais. Quando ele acordou, o padre teria pedido silêncio já

José Afonso Dé foi ordenado padre em 1969  em Apucarana (PR) e, logo em seguida, organizou um seminário na cidade para avaliar a vocação de meninos com idades entre 12 e 17 anos. O trabalho era muito semelhante ao mantido pelo religioso no município de Franca ao longo dos últimos 10 anos. A diferença é que na cidade paranaense o seminário era reconhecido pelo bispo daquela região na época, Dom Romeu Alberti. Já em Franca, segundo Dom Pedro Luiz Stringhini, padre Dé não tinha a mesma aprovação para atuar junto aos jovens francanos.


Esta semana, a reportagem foi até Apucarana e conversou com dois rapazes - que hoje têm 42 anos, são cabeleireiros e pediram para não terem suas identidades reveladas - que afirmam terem sido vítimas do vigário em 1981. Há 30 anos, quando tinham apenas 12 anos, sonhavam em ser padre. Ainda meninos, os dois tiveram a vocação avaliada pelo vigário da paróquia onde moravam por cerca de 12 meses e acreditavam estarem finalmente prontos para se tornar seminaristas. No mês de novembro daquele ano, uma sexta-feira, participariam de seu terceiro e último encontro vocacional da série preparatória para o internato e sentiam que a hora de decidir pela igreja finalmente chegara. O local era o Seminário Menor de Apucarana (PR) e o reitor do seminário, padre José Afonso Dé, então com 44 anos de idade.


Estava tudo pronto e, numa sexta à tarde, o grupo de mais de 40 adolescentes com idades entre 12 e 17 anos se reuniu no prédio de uma escola estadual recém adaptado para receber os seminaristas. O local estava lotado. No mesmo quarto com G e R, dormiriam mais 14 garotos. Às 22 horas, após passarem a noite em oração, os meninos se prepararam para dormir, mas não adormeceram de pronto. Conversaram ainda por cerca de uma hora. Quando tudo estava em silêncio e as luzes apagadas, aproximadamente à meia-noite, os meninos receberam uma visita inesperada de padre Dé. Pelo relato das vítimas, G acordou no meio daquela noite com padre Dé tocando seu órgão genital. O colega de quarto, R, assistiu a tudo.


Comércio - Vocês queriam ser padres?
G -
Queríamos. Na época em que entramos eu tinha um irmão que já estava no seminário há três anos. Eu era coroinha.
R - Nós íamos à missa e participávamos das atividades da Igreja. Então padre Dé convidou a gente para o primeiro encontro. Nós éramos “externos”. Fazíamos encontros vocacionais com os seminaristas internos e os padres dentro do seminário. Ficávamos três dias.
G - A gente entrava na sexta-feira à tarde e saíamos domingo à tarde. Duas vezes ao ano.
 

Comércio - De quantos desses encontros vocês participaram?
G -
Três e foi no terceiro encontro que aconteceu o inesperado.
R - Justamente quando era para nós dizermos sim ou não e nos tornarmos internos. Já estávamos determinados a dizer sim. Sabíamos que era nosso último encontro e que teríamos que decidir se íamos morar lá.
 

Comércio - Vocês se lembram quando aconteceu?
R -
Eu lembro. Foi no mês de novembro de 1981.
 

Comércio - E o que aconteceu exatamente?
R -
Nós chegamos sexta-feira, cantamos, rezamos, jantamos e fomos dormir.
G - Nós tínhamos o horário de irmos deitar, depois que a gente ia para a capela. Tinha o horário de bater o sino e o silêncio ficava total. Não se podia mais fazer barulho. Fomos até o dormitório. Cada um na sua cama. Era um quarto enorme meio arredondado que ficava embaixo da escada do seminário. Eu me lembro que deitei em uma cama bem encostada na parede e R deitou em outra ao meu lado. Depois de deitarmos, ainda conversamos um pouco, bem baixinho senão o padre brigava com a gente. As luzes todas foram apagadas. Uma hora depois que a gente tinha deitado, eu acordei com alguém mexendo comigo. Me bolinando. Estava pegando no meu órgão genital e acordei assustado. No momento que eu acordei, me assustei mais porque eu vi que era o padre Dé. E R estava acordado naquela hora.
R - Mas eu fingi que estava dormindo.
G - E ele (padre Dé) mexendo comigo, pegando em mim e ainda colocando o dedo na boca, me mandando ficar quieto, que não falasse nada. Fiquei perplexo, porque eu era uma criança na época.
R - Padre Dé mexia no G e olhava para mim, para ver se eu estava dormindo mesmo. E eu não estava dormindo. Quando ele encostou sem querer a perna no pé da minha cama, me mexi e ele saiu. Eu fingi que me mexia dormindo para ele sair de lá.
 

Comércio - Então um de vocês estava dormindo e o outro acordado na hora que ele entrou no quarto?
G -
Eu estava dormindo. Isso aconteceu por volta de meia-noite. E tinha muito mais gente dormindo ali. Uns 16 rapazes.
R - Eu não estava dormindo. Vi padre Dé entrando. Ele passou por todos, viu se estavam dormindo e veio. O susto de G foi rápido. Depois, a gente não dormiu mais. Amanheceu e ficamos olhando um para a cara do outro perguntando: “E agora?”.
 

Comércio - Mas você sabia o que estava acontecendo? Viu o que o padre estava fazendo?
R -
Vi tudo. Eu estava deitado, fingindo que dormia. Vi o padre Dé entrar, passar por todos e sentar aos pés da cama do G. Puxou a coberta, tirou o pijama que o G usava e começou a mexer no pênis dele.
G - Naquela época não se falava de pedofilia nem nada. Para mim foi um choque. Eu me perguntava: “O que é que foi aquilo do padre?”.
 

Comércio - Vocês estavam vestidos?
G -
Ele estava de batina e eu estava de pijama. Acordei com ele mexendo no meu órgão genital.
 

Comércio - Ele não tentou te beijar ou passar a mão em outra parte de seu corpo?
G -
Não. Eu estava dormindo. Se ele fez alguma coisa antes, não vi. Sei o que ele fez a partir do momento que acordei. Me espantei. Cheguei a falar: “Padre, mas o que é que é isso?”. Aí, ele fez sinal para que eu me calasse. Logo depois, o R se mexeu e ele foi embora. Achei que era assombração, aquele vulto todo de branco. Até que eu fixei as vistas mesmo e ele mandou para eu ficar quieto. Depois a gente não dormiu mais. O que aconteceu comigo foi só isso, mas me chocou. Depois a gente se perguntava: “Ser padre é isso? É vestir batina e ficar mexendo com os outros desse jeito?”. Ah, não quero isso de jeito nenhum.
R - O povo aonde a gente rezava o terço perguntava se a gente não ia para o seminário e porque a gente tinha desistido. E a gente estava indo tão bem...
 

Comércio - Isso foi sexta-feira de madrugada. E nos dias seguintes?
G -
Nos dias seguintes, eu e R ficávamos olhando um para a cara do outro e pensando: “o que é que nós vamos fazer?”. Pensei em contar pelo menos para o meu irmão.
R - E eu disse: “Eles vão falar que a gente tá louco.”
G - Ficamos naquela. E o medo? Mas, vai que a gente conta e ele vai querer agredir a gente.
R - Eu fui chamado depois na secretaria pelo padre Dé e ele perguntou porque o G não queria mais ficar no seminário. Eu disse que ele devia saber porque, mas não falei nada. Aí ele disse: “O que é que você viu?” e eu respondi que ele sabia o que eu tinha visto. Ele não falou nada, simplesmente colocou a mão no cinto, me ameaçando.
G - Estávamos prestes a sermos internos e aí saímos. Quando minha mãe perguntava o motivo, sempre respondia que eu vi que não era minha vocação. Mas não era nada disso. A gente não queria falar o que tinha acontecido.
 

Comércio - E o seu irmão que abandonou também de repente a ideia de ser padre?
G -
Meu irmão fala que viu que não tinha vocação. Assim como eu falava. Não sei. Eu fiquei pensando assim: “Poxa, mas espera lá. Aconteceu comigo, eu me espantei na hora e ele não passou daquilo. Mas e se eu não tivesse me espantado, ele teria parado? E não existia só eu. Havia mais seminaristas, outros quartos. Será que ele não fez isso com outros rapazes lá dentro?
 

Comércio - Vocês nunca contaram para ninguém?
G -
Até hoje, contando para a minha mãe, ela ficou perplexa. Falou: “Mas eu nunca fiquei sabendo disso”. Eu disse: “Claro que não mãe, a gente ia contar?”.
 

Comércio - Por que você nunca contou?
G -
Por constrangimento, por medo. Ele era famoso aqui. Ele era o “cabeça” do negócio (seminário). Poderia dizer simplesmente que eu estava mentindo e ia sobrar para mim. Com relação a minha mãe também. Naquela época, as mães eram muito severas. Era preto no branco, pronto e acabou.
 

Comércio - Vocês terminaram o encontro. Ficaram até o fim?
G -
Ficamos até o término.


Comércio - Ele não voltou a procurar vocês?
G -
Não. Depois disso não. Somente naquela noite e eu me espantei muito porque até então, nunca tinha ouvido falar nada sobre ele ou pedofilia.
 

Comércio - Depois do que aconteceu, vocês voltaram a ficar sozinhos com ele, em missas, na sacristia?
G e R (juntos) -
Não.
R - A gente não ia muito mais à missa.
G - Automaticamente você cria uma barreira. Passamos a não freqüentar mais tanto a missa. Antes, a gente participava de tudo. Fui coroinha dele. Ajudava ele na missa e nunca tinha acontecido nada. Por isso que eu fiquei mesmo chocado. Porque para mim, meu Deus, era como se meu pai viesse mexer (abusar) comigo. A gente olhava para ele como um pai. Sabe aquela coisa do filho ser obediente ao pai? Por isso me espantei tanto quando aconteceu. Acho que isso tem de acabar dentro da igreja católica. Eu sou católico, minha família inteira é e quero que isso acabe. Para que isso aconteça tem de haver punição.

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