Tragédia repetida


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Mais uma vez a história se repete e, agora, na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Aliás, essa coisa de “Cidade Maravilhosa” é coisa de ufanista porque tirando os pontos turísticos (uns criados pelo homem e outros agraciados por Deus) o Rio tem é muita feiúra. O fato é que não basta a fala dos intelectuais que gostam de enaltecer a “beleza cultural” de uma favela ou, a fala dos turistas que só freqüentam a zona sul carioca, para ignorar que a maior parte da cidade do Rio, e de muitas grandes cidades brasileiras e do mundo, é feia.


Mas, o estrago causado pelas chuvas desse início de semana realmente deixa profunda tristeza e desesperança em muitos brasileiros que insistem em acreditar que o poder público pode, em um determinado tempo, corrigir as mazelas provocadas pela falta de planejamento urbano, somado à falta de fiscalização ao cumprimento de Leis municipais como o Plano Diretor e de ocupação do solo e a ação destrutiva que o homem provoca no dia-a-dia.


A somatória desses fatores provoca angústia e pavor nas grandes cidades. Além disso, o que chama a atenção é que o fenômeno do caos e destruição, antes restrito aos morros e comunidades pobres, começa a atingir as áreas nobres da cidade e colocar em risco a tranqüilidade do morador mais abastado. Algumas pessoas até ensaiam dizer que é a natureza fazendo o que o homem não conseguiu até agora: provocar, na desgraça, a igualdade social. Todos sofrem com as inundações mesmo que, no final, uns mais e outros menos.


Um aspecto irônico nesse caos que se abate sobre o Rio, é que há duas semanas terminou na Cidade, “nem tão maravilhosa assim”, dois eventos internacionais que trataram sobre a urbanização, seu impacto na vida das cidades e a sua relação com as mudanças climáticas que ocorrem por todo o planeta. Bem, não é preciso dizer que não havia maneira mais “apropriada” de mostrar toda a realidade da infra-estrutura das grandes cidades do que o quadro visualizado nesses últimos dias. Pena que alguns políticos, técnicos e demais autoridades burocráticas não estavam mais presentes no Rio. Poderiam defender suas teses navegando nas principais avenidas cariocas.


O fato é que a natureza está, em todas as partes do mundo, enviando recados para nós. Ela tem dito que o mundo está se tornando inabitável. Está dizendo que as prioridades nos investimentos públicos e privados precisam ser melhor definidas, visando uma melhor educação (para criar a consciência da responsabilidade cidadã), pedindo que a fiscalização seja mais dura e que combata as obras irregulares mas que haja, também, uma correspondente política habitacional que remova todos os grupo de moradores que se encontram em áreas de risco (dando a eles segurança e dignidade) e que garanta, ao mesmo tempo, acesso aos recursos urbanos, às riquezas culturais, aos serviços e às oportunidades para todos os cidadãos.


Precisamos de administrações públicas que cuidem do cidadão ao contrário das que cuidam dos carros, investindo altos recursos públicos, única e exclusivamente, no recapeamento de ruas. Precisamos de políticas públicas transformadoras e inclusivas.

 

Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário

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