Meu sogro chegou à incrível idade de 97 anos. Andei fazendo contas: ele nasceu em 1913. Já viveu, praticamente, 1.164 meses; 4.656 semanas; 35.405 dias, ao final dos quais, desde que nos conhecemos, ele disse brincando, ao se despedir: “Mais um, menos um”.
Como comparação dessas quantidades, o neto mais novo, de 25 anos, contabiliza 300 meses; 1 200 semanas; 8 400 dias; a bisneta mais nova, com dois anos incompletos, exibe os modestos números de 1 ano; 34 meses; 136 semanas e nem mil dias, ainda... Sua infância se desenrolou durante a 1º Guerra Mundial; tinha 26 anos quando a Segunda começou. Já era senhor quando a Guerra Fria ameaçou o Planeta com um possível terceiro conflito de proporções inimagináveis. Acompanhou, senão a cura, pelo menos a prevenção de doenças e patologias como a tuberculose, a varíola, chagas, poliomielite, febre tifóide, assim percebeu a população mundial crescer. Viu a raiva ser controlada, não a humana infelizmente, da qual muitas vezes foi vítima – mas a outra, também conhecida como hidrofobia aquela, transmitida por outros morcegos e também por cães. Sonhou com a cura do câncer, assustou-se com a aids e com a violência de filovírus como o ebola. Gripes, teve praticamente todas – só recentemente se beneficiou com a vacina.
Por outro lado, viu coisas lindas. Tinha dezessete anos quando Iolanda Pereira, uma brasileira, foi coroada Miss Universo em 1930. Viu Martha Rocha quase ganhar o mesmo concurso internacional; assistiu Vera Fisher receber cetro e coroa, como a outra rainha, a Elizabeth da Inglaterra, país que sua neta mais velha escolheria para morar. Presenciou nascimento e crescimento de artistas como Ava Gardner, Lauren Bacall, Vivien Leigh, teve até um bigodinho à Clark Gable. Foi pioneiro das televisões domésticas e contava com orgulho ter sido freguês da Casa Hygino onde, muitas vezes, foi atendido pela jovem Luíza (fundadora do Magazine Luíza) que o ajudava a escolher presentes para Lourdes, sua esposa, com quem foi casado por mais de sessenta anos. Nunca se meteu em política. Nunca foi candidato, embora tenha atuado nas entidades voltadas para a agropecuária. Visionário e sonhador, há anos imaginava uma estrada mais curta que ligasse Franca a São Paulo, sem dar as tantas voltas que beneficiavam os proprietários de terras situadas entre Franca e Ribeirão Preto.
Não me lembro de tê-lo ouvido cantar uma música sequer, mas um dia testemunhei-o abrir e fechar repetidamente uma sanfona de nem sei quantos baixos, fazendo ruído infernal numa das salas do consultório colado à sua casa, para mostrar aos netos o som daquele instrumento. Sempre gostou de música e mostrou profunda admiração por Roberta Miranda. Um dia deu para um dos netos o violino misterioso que estava guardado num dos misteriosos armários do misterioso consultório, sem revelar origem, procedência ou motivo do carinho pelo instrumento. (O neto pediu, entende? Tudo que neto quer, ainda hoje é ordem para ele, percebe?...) Empertigado, vaidoso e altivo, sempre estava de terno e só muito recentemente abandonou o paletó e a gravata. Nunca pôs bermudas! Metódico e sistemático, conserva intacto todo o equipamento com o qual, durante décadas, trabalhou, fez nome e foi reconhecido como um dos grandes profissionais cirurgiões dentistas da cidade. Não nasceu, mas veio para Franca com mulher e filho pequeno, no comecinho dos anos 40. Aqui fincou raízes, plantou árvores e teve mais filhos. De quebra, trouxe pai, mãe, irmãos e se sentiu responsável pelos sobrinhos, dos quais ajudou a cuidar a vida inteira.
Ultimamente tem-se mostrado mais distante, mais calado. Fica remoendo pensamentos que não verbaliza, seu olhar se perde em algum lugar do passado. Confunde um pouco as pessoas e fatos, tem chorado muito. É emocionante vê-lo mimado pelos filhos, netos e bisnetos que o adoram. Fico surpresa toda vez que presencio a cena e concluo: meu vínculo com ele é apenas eterno, segundo as leis humanas. Meu carinho por ele é muito, muito maior.
Estranheza
Meu sogro adora Franca. Mas está longe do burburinho da cidade e desconhece que existe rodando solto por aí um feio sentimento chamado inveja: só pode ser esse o impulso que leva os comerciantes, por exemplo, a copiar os nomes dos estabelecimentos dos outros. Quando uma empresa colocou “& Cia” no nome fantasia da sua fachada, quinhentas outras colocaram também. Assim existem coisas esquisitas como Comida & Cia; Canos & Cia; Limpeza &Cia.
Trânsito
Quando meu sogro dirigia, os carros eram poucos e rodavam sobre as ruas calçadas, em sua maioria, com paralelepípedos. Existiam alguns sinais de trânsito e eram obedecidos (os semáforos são recentes.) Quase todas as ruas tinham mão dupla. Carroças com tração animal eram comuns: leiteiros e chacareiros passavam nas casas oferecendo suas mercadorias (sem agrotóxicos). Leiteiros entregavam leite em garrafas de vidro, substituindo as limpinhas que as donas de casa deixavam nas portas das casas. Acidentes de trânsito eram poucos.
Segurança
Antigamente, toda vez que meu sogro saía de casa para ir ao cinema, podia fazê-lo com tranquilidade. Havia segurança. Ele nunca deixou as dele por uma questão de temperamento, mas as chaves de quase todas as casas ficavam ou sob o capacho da entrada de casa ou dentro do vaso de samambaia. Usuários de drogas praticamente não existiam (só no Rio de Janeiro e em São Paulo) embora, todo mundo soubesse, havia um ou dois caras na cidade que fumavam maconha. Mas isso já era lá pelos anos 50.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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