Estava aqui a ler Deus acredita em você?, fruto de uma entrevista que o filósofo Olavo de Carvalho concedeu à Rádio Europa Livre, em Bucareste, em 1998. Dá o que pensar. A cada dia mais me convenço de que todos nós somos videntes adormecidos. Os cegos em vigília estão a nos conduzir e somos o rebanho que segue o 'carneiro-chefe' sem questionar para onde estão nos levando.
As questões metafísicas, a transcendência, a desconcertante e indiscutível presença divina em nossas vidas sequer adentram a antecâmara de nossa consciência. Apressados, sempre aguardamos o próximo espetáculo. Não digerimos nada. Somos incapazes de refletir acerca da porção de ração diária que nos é concedida. Nada, nenhuma notícia veiculada oferece qualquer chance, ainda que mínima para que possamos pensar.
Quando alguém tenta alertar sobre a necessidade de se pensar o paradigma no qual todos estão submersos, é ridicularizado, chamado de reacionário e desprovido de visão panorâmica. Resumindo: é bitolado mesmo.
Mas não é exatamente o contrário? Pequenas amostras desse autoengano estão nas ações e reações humanas a acontecimentos que não passam de grandes tragédias, mas que são vistas como espetáculos.
Na Idade Média ocorriam execuções em praças públicas, onde as paixões mais vis poderiam encontrar respaldo. E todos comemoravam as decapitações, enforcamentos e mortes nas fogueiras com gritos de prazer. Atualmente, morte de criança, condenação do próprio pai, crianças órfãs, famílias inteiras destruídas e estigmatizadas para sempre, encontram quem comemore com fogos de artifício.
Ah, fico a pensar em Robespierre, Comte, Durkheim e Voltaire. Eles foram os maiores defensores da razão. A 'deusa-razão', a 'religião da humanidade' e a ciência como a 'nova religião'. Agora temos no panteão uma modalidade pós-moderna de religião - a felicidade. Temos de ser felizes a qualquer preço. Não importa como, a felicidade é uma obrigação que nos é imposta.
A 'felicidade' dos séculos XX e XXI se compra nos becos, nas suítes de motéis de luxo, nos endividamentos, nas baladas, nas viagens, nos consultórios médicos, nos livros de autoajuda e nos shoppings das religiões.
O tédio e a nossa inabilidade para lidar com a solidão, assim como o vazio ontológico que padecemos desde o nascimento, impedem que raciocinemos e sintamos o sabor que tem a vida plena, isenta de muletas e desculpas esfarrapadas.
Esse vazio é o vazio de Deus! E só pode ser superado com exercícios constantes e sistemáticos de comunhão com o Criador. O rompimento com a 'Origem' custou a nudez e a vergonha. Nus de espiritualidade e envergonhados pela separação. Perdidos num labirinto de matéria em três dimensões. Apenas e tão somente três dimensões. E ainda querem nos fazer crer que se consegue chegar 'vivo ao paraíso'. O paraíso não é aqui. A fraqueza moral da natureza humana é invencível. Só poderá ser fortalecida em Deus. Jesus não falou em vão que Ele é o caminho, a verdade e a vida. Nós só conseguiremos nos entender a partir de Deus. O mal tem mil formas, o bem apenas uma.
Nadir Ap. Cabral Bernardino
Professora
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