Médico de instrumentos


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ESPECIALISTA - Ricardo Lopes posa ao lado de instrumentos musicais em sua oficina: restaurações podem demorar até quatro meses
ESPECIALISTA - Ricardo Lopes posa ao lado de instrumentos musicais em sua oficina: restaurações podem demorar até quatro meses

Na entrada da residência tem uma guitarra sem cordas pendurada no teto com os dizeres "Seja bem vindo". Na recepção, basta olhar para o teto e verá um lustre feito com o corpo de um violão. Meros caprichos encontrados na casa-oficina de Ricardo Lopes de Figueiredo, 25. Profissão: luthier, lutiê ou luteiro ou, para quem nunca ouviu falar, o profissional responsável por produzir e fazer manutenção em instrumentos - originalmente apenas de corda -, mas o termo se generalizou.


Ele é um dos poucos especialistas na área encontrados em Franca. Trata-se de um trabalho valorizado e reconhecido como arte entre aqueles que realmente precisam dele. Só quem é músico sabe o quão desagradável é ter um violão empenado, uma guitarra "mentindo na afinação" ou com o captador prejudicado ou parte de seu cavaquinho quebrado por uma queda acidental...


Baixista desde os 14 anos e primo distante do músico Diego Figueiredo, Ricardo começou a atuar na luthieria de instrumentos de corda há cinco anos, desde que foi convidado por uma escola para fazer a manutenção dos instrumentos dos alunos. "O primeiro trabalho foi num baixo Fender que lixei à mão, mudei a cor e alterei toda a parte elétrica", afirma. Depois disso, começou a aprender as técnicas com um amigo luthier em São Paulo, cuja oficina serve hoje para dar vida a seus novos projetos.


Ricardo é apaixonado por música, mas revela não trocar o seu ofício por nada, nem por uma agitada vida de shows típica de um músico. Em Franca, está há apenas três meses em seu atual local de trabalho, uma casa no centro de Franca onde mora com os pais. Uma das salas está repleta de violões Giannini, Del Vecchio, violas Trovador e Xadrez e até uma cara guitarra Ibanez (modelo do Stevie Vai). São modelos velhos ou danificados ou com pequenos ajustes a fazer, tudo deixado por clientes esperançosos em vê-los novos. Nas prateleiras, baterias de 9 voltz, cabos de energia todo o tipo e, no canto, um amplificador.


Mais ao fundo está a "sala de cirurgia" ou, numa comparação mais próxima, um ambiente muito parecido com uma marcenaria. Pó de madeira, pregos e tarrachas de todos os tamanhos, thinner, esmeril, tinta de pintura automotiva, verniz, cola, chaves de fenda, multímetros e um pequeno estúdio de pintura a jato formam a bagunça organizada.


Tudo isso dá o pano de fundo a seu expediente, que geralmente dura 12 horas por dia, das 7 às 19 horas, e inclui constantes viagens a São Paulo, onde também confecciona novos instrumentos, de acordo com o sonho e o bolso dos clientes. Um violão top de linha pode sair por até R$ 6 mil das mãos do nosso entrevistado e demorar seis meses para ficar pronto, desde o processo de escolha da madeira, desenho do modelo, até o corte do corpo e do braço, definição da escala, pintura, verniz e acabamento final com ferragens e captadores.


Por falar em dinheiro, é possível dizer que a profissão rende uma boa grana. Ricardo Lopes, que entrega em média de 15 a 20 instrumentos prontos e atende músicos conhecidos na cidade como Ronaldo Sabino e Juninho Abrão, diz tirar por mês até R$ 3 mil, através de tarefas que custam de R$ 40 (manutenções simples como regulagem de oitava, tensor e limpeza de violões) até R$ 500 (restauração completa de instrumentos antigos). Os serviços mais complicados, segundo ele, são os de restauração, que levam até quatro meses para serem concluídos. Inclui-se aí uma guitarra de 1957, o instrumento mais antigo que restaurou até hoje. "Tem gente que traz violão de 1988 achando que é o fim. Aí faço todo o trabalho e o violão sai daqui como se saísse da fábrica", garante.

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