Passou a páscoa, momento de reflexão que tivemos para examinar de maneira madura como tem sido nossa conduta, nossa tolerância, nossa atenção com o próximo. Fizemos um balanço justo? Fomos bem sinceros na análise de como nos temos comportado na sociedade em que vivemos? Ao homem cabe responsabilidade e poder de arbítrio de auto analisar-se para corrigir-se ou regozijar-se com seu comportamento.
Páscoa significa renascimento, daí a mais elevada oportunidade neste momento, em seu silêncio, recolher do resultado de uma avaliação honesta e acurada detectar pontos negativos e positivos de nosso proceder. Renascer, reformular a vida, alimentar esperança do “amai-vos uns aos outros” pode ser o único caminho, guia de um renascer do mundo.
Antes desta páscoa, quantas vezes transgredimos leis, ordens, regulamentos, elevando a voz sem motivo com pessoas quase sempre humildes e sem culpa. Nossa intolerância, a pressa, o egoísmo desconsideram idosos e suas incapacidades de reação, desrespeitam sinais de trânsito, atropelam crianças indefesas. Beatos seduzem meninos impúberes.
O noticiário farto nos jornais, nas emissoras, nas televisões, mostra todos os dias a devassidão que assola o mundo sem qualquer ação regulatória. O atentado ao pudor viceja nas ruas, nos salões, na família e na igreja sem nada que conteste. O desocupado leva o salário do velhinho aposentado a caminho da farmácia. O pegajoso me cutuca e cochicha em meus ouvidos durante a palestra que quero ouvir, assumindo a liberdade que não pretendo. A empregada passa meu telefone para a financeira e loja que o usam com insistência para cobrá-la, inadimplência que a ela nada importa. Eu mesmo raramente chamo alguém por telefone para não ser pegajoso e, quando preciso, a desculpa da reunião inibe o atendimento. Minha vizinha exalando perfume francês entra no elevador social com seu enorme cachorro rosnando para mim, eu tremo de medo e não falo que é proibido pelo regulamento do edifício.
No consultório do médico, a atendente de cenho franzido passa medo ao paciente. Deve estar sofrendo dores horríveis pela carranca que faz. O médico que não deve ter dormido em casa, depois de longa espera ao atender boceja mal humorado, não apalpa, não ausculta e manda embora com um pedido de exame ou mesmo a receita decorada de remédios impróprios em certas doenças como diabete.
A páscoa enseja renascimento e muito bem pode ser a passagem de um inverno para a primavera, transição do estado de frio e recolhimento da alma para liberdade com o prazer da beleza e perfume das flores. A ressurreição nos fez refletir? Desejamos elevação e mudança? Vai acontecer?
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