Boas maneiras, etiqueta e educação são coisas parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes entre si. Ninguém nasce com esse trio pronto e segue pela vida afora. Tudo nessa área é aprendido pela vivência da própria pessoa. Aprimorar então leva tempo. Daí a razão de cada um ser de um jeito em sociedade.
Dia desses, uma mulher (refinada, como se dizia antigamente) foi até um varejão. Depois de empurrar o carrinho por vários corredores, ao ver o funcionário do setor de frutas partir uma melancia ao meio, estaciona bem ao lado, exclama e pergunta: “Que beleza, tão vermelhinha! Será que está boa?”. Ato contínuo, antes da resposta, põe a mão na melancia.
Nada demais, se pelo menos tivesse colocado a mão na casca. Mas, não. A mulher retira uma das mãos do empurrador do carrinho, lugar em que todo freguês pega, depois de ter manuseado até dinheiro, firma a metade da melancia com o polegar e apalpa a colorida polpa com os outros quatro dedos. Por fim, concluiu que a fruta não estava boa.
Essa é nova. Além da falta de educação, por pôr a mão em coisa de comer, que não pode ser lavada antes da ingestão, a mulher trocou os membros sensoriais. Só a língua pode saber se uma melancia está boa. Os dedos, não. Quem comprou a parte da fruta pode ter consumido produto infectado.
Quanta diferença entre uma pessoa e um personagem. No livro The Godfather, de Mario Puzo, escritor norte-americano traduzido literalmente em Portugal como O Padrinho e no Brasil como O Poderoso Chefão, mas que devido ao filme, dirigido por Francis Ford Coppola, virou por aqui simplesmente “o chefão”. Don Corleone é o protagonista extremamente educado.
Pela trama do livro, apesar de representar um lado social dos mais violentos, Don Corleone, interpretado por Marlon Brando, é um homem que respeita a palavra e o ser humano, acima de tudo. Gostava de comprar frutas para sua família. Era freguês cativo de uma banca. Enquanto todos apalpavam os produtos, para escolher o melhor, ele somente apontava a maçã, a laranja ou outra fruta ao proprietário. Este pegava e embalava.
Numa das passagens, o feirante quis saber o motivo de o próprio Don Corleone não pegar os produtos, escolhendo pelo tato os melhores. O dono da banca de frutas ficou então sabendo que ninguém era obrigado a comer alguma coisa já manuseada antes por outro freguês, com risco de se contaminar devido aos apertões.
A vida imita a ficção. Às vezes, onde menos se espera. Um engraxate do Centro, com ponto entre o terminal de ônibus e as praças, lutando contra a dependência de drogas, ainda é capaz de se lembrar da mãe. No final do dia, ele entra numa padaria, compra dois pães de queijo e come. Depois, pede à balconista para embrulhar mais três. Ela diz a ele para escolher na cestinha em cima do balcão. O rapaz fala: ‘por favor, pegue você, minha mão está suja e estes são para minha mãe’.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.