Ele está vivo e ainda ajuda multidões. Juliana Alves da Silva, 27, faxineira que janta com a família às quintas-feiras no Refeitório Amigos Anônimos, em Uberaba, tem convicção de sua presença. Não ouse dizer o contrário para a dona de casa Leni Fernandes Rodrigues, 54, assídua frequentadora do Cemitério “São João Batista”. Tampouco diga que ele não mais existe para dona Claudemira Cândida dos Santos, de 90 anos, que sai satisfeita do Assistencial Chico Xavier carregando o frango que vai assar no domingo.
O legado do médium Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, mantém vivo e forte o seu nome e torna “real” a sua presença. Que ele morreu, em 2002, é um detalhe - especialmente para os espíritas. Na última sexta-feira, dia 2, o médium mais conhecido do mundo e uma das personalidades mais queridas dos brasileiros teria completado 100 anos.
Chico Xavier, nascido em berço pobre e católico em Pedro Leopoldo, interior de Minas Gerais, a 40 quilômetros da capital Belo Horizonte, cresceu sem jogar bola, foi um adolescente cuidadoso com os irmãos, um rapaz que não namorou, se tornou um homem quase sem estudos - foi reprovado no quarto ano do ensino fundamental e deixou a escola assim que o concluiu, com 13 anos -, tinha sérios problemas de visão desde muito novo e, aos olhos do povo, era cheio de esquisitices, taxado até de louco. Pudera, uma multidão invisível fazia parte da rotina dele. Só dele.
Não tinha, portanto, nenhuma característica em seu perfil que indicasse que ele se tornaria personagem central de uma crença, que viria a conseguir respeito até de quem não compartilha de suas convicções.
A rica trajetória do homem e do médium não tem explicação definitiva. Foram 92 anos de vida, já se vão quase oito anos de sua morte. Mesmo depois de morto - e, para alguns, sobretudo depois disso - ainda emociona, motiva e movimenta pessoas em torno do Espiritismo.
A reportagem do GCN Comunicação foi, então, a campo em uma tentativa de aproximar o leitor do homem e da celebridade.
Duas cidades mineiras marcaram especialmente a sua trajetória e devem ao médium suas projeções no cenário nacional. Pedro Leopoldo, o “berço”, onde nasceu em 2 de abril de 1910, e Uberaba, a “bênção”, onde se radicou a partir de 1959, na segunda fase de sua tarefa missionária. “Creio não ser ingrato afirmando que Pedro Leopoldo é o meu Berço e que Uberaba é minha Bênção”, é frase conhecida dita por Chico Xavier sobre as cidades onde viveu.
PEDRO LEOPOLDO
Na primeira, é mais fácil encontrar o Chico homem, órfão da mãe Maria João de Deus desde os cinco anos, torturado até por garfos enfiados na barriga pela madrinha dona Rita e acolhido pela madrasta Cidália Batista. Depois, o profissional que se tornou escriturário do Ministério da Agricultura, cargo no qual se aposentou em 1961. As casas onde viveu, a Fazenda Modelo onde atuava, a família, incluindo Cidália Xavier, 87, sua única irmã viva, estão lá.
Em Pedro Leopoldo houve seu primeiro encontro com o espiritismo, com a mediunidade, com a psicografia. Quando deixou a cidade, em janeiro de 1959, aos 48 anos, tinha publicado “Pensamentos e Vida”, “ditado” por Emmanuel, seu espírito guia mais importante, ao lado do de André Luiz. Era o livro de número 59. Viriam outros mais de 350.
Nunca aceitou o dinheiro arrecadado com a venda dos livros que hoje, traduzidos em diversos idiomas - inglês, espanhol, japonês, esperanto, italiano, russo, romeno, mandarim, sueco e até em braile -, superam a marca dos trinta milhões de exemplares vendidos. Os direitos autorais foram cedidos para organizações espíritas e instituições de caridade. Do que ele vivia? Documentos e relatos mostram que era da aposentadoria de funcionário público. Até o fim da vida.
UBERABA
Em Uberaba está mais presente o Chico de popularidade já alavancada - inclusive pela ajuda de artistas, políticos e celebridades -, absolutamente reconhecido por sua obra espírita e pela atenção dispensada a todos que o procuravam em busca de auxílios de todos os tipos na Casa da Prece (ainda em atividade), em sua casa (transformada em museu) e nos centros assistenciais criados por ele (Refeitório “Amigos Anônimos” e Assistencial “Chico Xavier”).
Chico transformou aquela cidade no centro das atenções do Espiritismo no País, ponto convergente de visitantes que a frequentam, sendo um divisor de águas da doutrina. Dados da AME (Aliança Municipal Espírita) local apontam que quando o médium chegou à cidade, os centros espíritas não contavam dez e hoje passam de 120, resultando no município onde o movimento espírita está entre os mais influentes.
Foi em Uberaba que ele morreu vítima de um ataque cardíaco, em 30 de junho de 2002, “em um dia de grande alegria para o povo brasileiro”, conforme havia dito que queria, em um dia feliz: foi o dia em que o Brasil sagrou-se penta-campeão mundial de futebol em Tóquio, Japão.
O reconhecimento, sem dúvida, se mostrou em vida. Chico foi, por exemplo, escolhido “O Mineiro do Século”; o Governo do Estado de Minas Gerais instituiu a “Comenda da Paz Chico Xavier”, outorgada anualmente a pessoas ou entidades que trabalham pela paz e foi ainda indicado, em 1981, para o Prêmio Nobel da Paz.
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