Todos os domingos Maria do Carmo de Mello Pinto, 78, tem um compromisso que considera “sagrado”. É dia de baile no Centro Comunitário “Maria do Rosário”, em Patrocínio Paulista. Para ela, é um mundo à parte, um lugar onde esquece de seus problemas. A paixão pela dança de salão começou há cinco anos. Tanto tempo já lhe rendeu um título de rainha do baile. A preparação para a festa começa nas tardes de sábado, quando ela vai para o salão de beleza fazer as unhas e escovar os cabelos loiros. No domingo, faz maquiagem e escolhe a roupa, o sapato e os acessórios. O ritual começa uma hora antes de sair. “Sou como toda mulher: demoro muito para me arrumar”, brinca.
Por volta das 14h30, Carminha, como é conhecida, sai de casa com a nora Eliana Helena Pinto, 54, no Jardim Nossa Senhora das Graças em Franca. Andam dois quarteirões até a esquina onde pegam o ônibus que as leva até a cidade vizinha - com elas vai um grupo de 40 pessoas com idades que variam de 50 a 88 anos.
O ônibus, que é fretado pelo grupo ao preço de R$ 5 ida e volta, por passageiro, percorre a cidade durante quase uma hora para pegar todos. A turma é animada e o tempo passa rápido com as brincadeiras de uns com os outros.
Carminha vai na primeira poltrona, ansiosa para chegar logo ao ponto da Praça Itaú. Tanto nervosismo tem uma explicação. Assim que o ônibus para, entra Luís Paradiso, 71. Os olhos de Carminha até brilham quando ganha um beijinho dele. São quatro meses de namoro. Como adolescentes, a turma ri e faz comentários. Ana David Vilela, 88, é uma delas. “Fiquei sabendo que eles estão namorando dias desses”, brinca. Ana também não perde os bailes de domingo. Quando perguntam cadê seu namorado, apenas diz: “Ficou em casa”. E não fala mais nada. “É segredo”.
No caminho também entram no ônibus as amigas Maria Aparecida de Almeida, 57, e Maria José Rodrigues, que não revela a idade de jeito nenhum. O que elas mais gostam no bailão em Patrocínio é o ambiente. “Além de dançar, é bom para fazer amizades”, disse Aparecida. Já se aproxima das 16 horas quando o ônibus chega em Patrocínio. Ansiosos, antes mesmo de entrar na cidade, o pessoal se levanta. O motivo para tanta pressa? “Para pegar mesa”, explica Ana que se equilibra no corredor.
NO BAILE
Depois de pagar R$ 3 na bilheteria, entram apressados no salão. Rezam um Pai Nosso e uma Ave Maria. Em poucos minutos, a música começa a tocar. No palco, um sanfoneiro, um baixista e um baterista. São três horas de forró. Depois passa para o sertanejo. Carminha e Luís puxam a dança. Entre uma música e outra, é feita uma pausa de alguns minutos para a turma respirar. As amigas Ivony Pinto e Júlia Brandieri, ambas 80 anos, aproveitam para descansar. As duas moram em Franca e pegam carona com um dos músicos.
Enquanto a turma se anima com o forró, na varanda ao lado, um grupo não perde um lance do jogo de futebol que passa na TV de 29 polegadas. Da cozinha, o presidente do Centro Comunitário, Helvécio do Nascimento, 70, e a mulher Aparecida Barbosa do Nascimento, 70, preparam porções de batata frita. Também são vendidos água, refrigerante e cerveja. O que mais se vê nas mesas são cervejas. “Realizamos este baile há mais de 20 anos e nunca tivemos problemas com brigas. É uma festa familiar que atrai gente de cidades como Patrocínio, Franca, Itirapuã, Pedregulho, entre outras”.
Às 21h30, o ônibus para na porta do Centro Comunitário. É hora de voltar para casa. Já com saudades, os idosos planejam o próximo domingo quando começa tudo de novo.
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