“Sem caridade não há salvação”. A frase popularizada por Chico Xavier não só está escrita em paredes, faixas e panfletos como é vivenciada de forma intensa em Uberaba e Pedro Leopoldo. Quando não estava a serviço da mediunidade, Chico estava de mãos estendidas para a caridade. Em seu dia a dia era nítida a preocupação de ensinar a vivência do Evangelho por meio de práticas de caridade.
Em sua segunda e última casa, a cidade mineira de Uberaba, vários exemplos estão concretizados. Chegamos em uma quinta-feira de sol quente para começar a “vivenciar” Chico. Passava pouco das17 horas e uma fila mista, bem mista, se formava no corredor do Refeitório “Amigos Anônimos”, prédio anexo ao Assistencial “Chico Xavier”, ambas as instituições idealizadas pelo médium e localizadas na Avenida João 23, no Parque das Américas.
O cheiro forte de comida mineira noticiava o que aconteceria ali. A rotina dos tempos de Chico vivo permanece a mesma. Todas as quintas-feiras aproximadamente 500 pessoas se alimentam bem e gratuitamente no “jantar dos carentes”.
Oração e comida é o que a maioria busca. É assim para a jovem dona de casa Francineli da Costa Mendes Alves, 19. Com dois filhos a tiracolo, ela conta que todas as quintas o jantar da família é no “refeitório do tio Chico”. “Ajuda, né? (sic). Tem muita gente que não tem comida. Venho aqui desde muito pequenininha, vinha com a minha mãe. De Chico Xavier eu nem sei como falar. Só de ver ele a gente ficava feliz”, afirmou.
Outra que diz se sentir muito beneficiada é a faxineira Juliana Alves da Silva, 27. “Desde sempre”, como diz ela, frequenta com a família o Refeitório “Amigos Anônimos”. “Vinha com a minha mãe e meus 11 irmãos e agora trago as minhas filhas. Conheci Chico, tive a oportunidade de pegar na mão dele e foi muito emocionante. A gente passa por tanta dificuldade, pensa em fazer tanta besteira, mas a gente vem aqui e a espiritualidade ajuda bastante a refletir. Aprendi com ele a ter mais paciência, ter mais cautela, ajudar os outros sempre que puder”.
Fisicamente alimentados, Juliana, Francineli e outras dezenas de frequentadores são unânimes ao ressaltar - mesmo que não perguntados - que o que mais alimenta é a “presença” de Chico. Sim, para eles, o médium está lá. Nunca deixou de estar e é o alimento para a alma. É assim no Espiritismo.
Voluntária no Refeitório, Maria Elisa Dias, 70, professora aposentada, conta que conviveu com o médium e não mudou a sua rotina após a morte dele. “Só aqui no jantar são 14 anos de trabalho. Estou desde o primeiro jantar servido com muito amor, gosto muito de estar aqui, me realizo. Nasci em berço espírita e, desde a chegada do Chico em Uberaba, passamos a frequentar a Casa (da Prece) e nunca mais deixamos. Convivia com ele. Inclusive durante a sua enfermidade, ficava com ele de três a quatro vezes por semana. Aprendi muito, recebi muito e espero receber mais porque tenho certeza que ele está sempre nos ajudando”.
No refeitório o trabalho é dividido por setores. No todo, 25 pessoas se revezam nas atividades. Maria Elisa é uma das que ajuda a servir a comida nos 480 a 500 pratos de alumínio que saem da cozinha cheios de arroz, feijão, carne e salada e vão direto para as compridas mesas.
As pessoas entram no salão para jantar em grupos de 80. O primeiro faz uma breve oração para “abrir” o jantar. “Os alimentos chegam de doações, mas principalmente de um benfeitor do Rio Grande do Sul, um empresário que não nos deixa faltar nada”, explica Maria.
Também professora aposentada, Neusa Aparecida de Assis, 62, conhecida como Dondinha, atua como voluntária nas obras de Chico há pelos menos 30 anos. “A vivência de Chico é a maior caridade de Deus para conosco. Por isso procuro vivenciar os princípios que ele deixou em nossos corações. Para mim ele nem precisava ter escrito com a caneta. A própria vida dele escreveu em nossos corações a vida de Jesus”.
LEITE, PÃO E FRANGO
O Refeitório é apenas um braço do legado de desprendimento e amor ao próximo deixado por Chico Xavier em Uberaba. Para se ater apenas a exemplos mais concretos, a caridade do médium ergueu também uma rotina de auxílio semanal aos carentes no Assistencial “Chico Xavier”. Ou a quem quiser. Não há triagem.
Quem entra na fila da sede do Assistencial recebe, aos sábados, leite, pão, rosca e frango. Uma vez por mês, as sacolas voltam mais cheias ainda: cesta básica completa. São R$ 20 mil em cestas básicas mensalmente, segundo a direção da instituição.
Como não há nenhum cadastro, para um mínimo de ordem, crianças, adolescentes, mulheres, homens, gestantes, idosos e deficientes são segregados em corredores divididos por telas de aço.
O balconista Valdir da Silva Neto, 53, faz o “meio de campo” na organização há oito anos. Único a falar alto e dono da expressão mais ríspida na turma de voluntários, ele organiza e orienta as pessoas. “Senhoras aqui”, berra. “Crianças na primeira fila, cadeirantes lá, idosos de lá, rapazes na ponta”, segue anunciando até às 14 horas, quando o portão se fecha e a fila começa a andar. É rápido. Em pouco mais de 20 minutos, 2 mil pães, 700 roscas, 1,2 mil litros de leite e mil frangos inteiros congelados foram distribuídos na presença da reportagem.
Entre os contemplados estão Claudemira Cândida dos Santos, 90, e o filho dela Orlando Gregório dos Santos, 62. A senhorinha de cabelos alvos sedosos era a primeira da fila dos idosos. “A gente vem todos os sábados, faz muitos anos”, conta dona Claudemira, sem saber precisar o tempo.
Nancy de Oliveira Babosa, 76, tem menos idade, mas, garante, mais tempo de assistência. Emociona-se ao falar de Chico Xavier e dos benefícios recebidos. “Venho há mais de 40 anos, sou das mais antigas aqui. Sobre o Chico, digo que tudo de bom ele que fez. Para mim ele é um pai. O pai que nunca tive”, diz em lágrimas e com a voz embargada.
A direção de tudo está nas mãos do dentista Eurípedes Humberto Higino dos Reis, 60, criado informalmente como filho por Chico Xavier. “Ele não gostava nem do termo filho adotivo, nem filho de criação, ele preferia que todos chamassem de ‘filho do coração’”.
O dentista conta que a liderança das instituições já era dele, mesmo antes da morte do médium. “Eu já era o presidente. Ele (Chico) dizia que era só o médium e que o administrador das coisas era eu. Antes de 88 a gente ainda tinha um companheiro que ajudava a gente, o Wilker Batista, mas ele desencarnou e depois ficou só comigo (a administração)”.
MÉDICOS E DENTISTAS VOLUNTÁRIOS
Além de comida, no Assistencial “Chico Xavier” há também atendimento médico e odontológico básicos. Nada de medicina do além. A dentista Ana Lúcia Mendes, 52 anos, há três anos trata com equipamentos e métodos que aprendeu na faculdade os dentes de crianças e adultos carentes. O incentivo, mais uma vez, é a “presença” de Chico Xavier. “Conhecia Chico e digo que só de estar perto dele recebia uma influência maravilhosa. Estar aqui é uma benção. Vivi o Chico a minha vida inteira”.
Abençoado também diz se sentir o dentista Renato Alfeu Vilela, 26, que estava em seu primeiro dia de atendimento voluntário. “Estar aqui é uma renovação de espírito. Chico Xavier foi tudo na minha vida. Nós seguimos a doutrina dele e (isso) traz uma paz de espírito grande”. Aproximadamente cinco pessoas são atendidas por dia. Médicos também atendem no local.
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