A partir do momento em que a pessoa é cotada para assumir a presidência da República, a proteção beira a paranóia.
Os passos de um chefe de Estado, normalmente, são cercados de forte esquema de segurança. Quando ele é cotado para assumir a presidência da República, a blindagem é total. Beira a paranóia. Foi o que aconteceu em Franca, sexta-feira, durante a passagem do governador José Serra (PSDB). Confirmada desde o começo da semana, a visita foi mantida sob sigilo até a véspera. As poucas pessoas informadas foram orientadas a não divulgar o local e o horário em que o tucano estaria na cidade. Era uma estratégia para dificultar protestos ou eventuais atentados. Na quinta-feira, uma equipe de segurança do Palácio dos Bandeirantes, chamada de Preceptor, já estava em Franca rastreando os locais por onde Serra iria passar. Eram pelo menos dez homens, todos policiais militares, vestidos com trajes civis e com armas escondidas na cintura. A discrição é a marca registrada do grupo que fica infiltrado em meio aos populares. Outra característica é falar pouco e se comunicar apenas entre eles. A única maneira de identificá-los era pelo fone preso ao ouvido.
O trajeto do aeroporto até o ginásio de esportes da Sabesp foi medido e cronometrado. Pontos onde poderiam acontecer problemas foram anotados. Imóveis foram vasculhados em busca de artefatos que poderiam colocar em risco a integridade física do governador. A van alugada para transportar a comitiva foi “confiscada” pelo Estado. O motorista ganhou folga forçada e um segurança de Serra cuidou do volante durante os deslocamentos. Na tarde de sexta-feira, vinte homens da PM de Franca e dez guardas-civis se juntaram à equipe de segurança. A Força Tática, com 50 PMs, ficou de prontidão. O coronel Brandão passava as orientações pessoalmente ou por celular à tropa. Qualquer veículo ou pessoa suspeita que se aproximassem do aeroporto eram abordados. Quando o avião chegou, policiais à paisana e fardados ocuparam pontos estratégicos com a mão em posição de saque.
O serviço de inteligência driblou um grupo de cerca de 20 sindicalistas que protestava com um caminhão de som ao lado da Sabesp. A comitiva entrou pelo lado oposto. Dentro do ginásio, os seguranças ficaram atentos a qualquer movimento e rechaçaram aproximações não autorizadas ao governador. Na saída, a polícia simulou que sairia por onde havia entrado e chegou a interromper o trânsito no local. Os manifestantes correram para lá empunhado faixas e gritando palavras de ordem contra o governador. José Serra saiu pelo portão oposto sem ouvir insultos. As 21h04, o avião decolou para São Paulo. Aliviado, o coronel Brandão ligou do celular para o comando regional da PM e avisou. “O governador embarcou com toda a segurança. Missão cumprida”. Só, então, ele sorriu.
Protesto solitário
O professor de História Antônio Francisco Corrêa, 39, certamente desconhecia o aparato de segurança que cerca o governador. Ele foi protestar sozinho no aeroporto com um cartaz debaixo dos braços. Esperou a chegada do avião por mais de duas horas. Antes, teve os documentos checados e foi orientado a não criar confusão. Quando José Serra apareceu, os seguranças o agarraram com uma rapidez impressionante e arrancaram o cartaz de sua mão. Ele só foi ver o governador pelas fotos publicadas no dia seguinte.
Número dois
O esquema de segurança só não livrou o governador de um pequeno desconforto. Ao descer no aeroporto, Serra cumprimentou o prefeito e mais meia dúzia de pessoas e correu para o banheiro. Permaneceu lá por sete minutos. Três seguranças ficaram de prontidão no corredor para impedir que alguém entrasse. Sidnei Rocha ficou próximo deles. Serra saiu sorridente e entrou na van. Não foi possível confirmar se o banheiro do deserto aeroporto havia sido limpado antes.
‘eu, eu, eu...’
O deputado Roberto Engler (PSDB) tem o hábito de abraçar a paternidade de todas as obras realizadas pelo Estado na região. Como foi o primeiro a discursar, não deixou nada para Gilson de Souza (DEM). Gilson não entrou na briga e, ironicamente, conferiu todos os méritos ao adversário. “Já que o Engler pegou tudo para ele, vou apenas agradecer ao governador por tudo o que fez pela região”. Serra contemporizou e disse que eles são dois batalhadores por Franca e região.
Edson Arantes
Jornalista – edson@comerciodafranca.com.br
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