Santo


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Quando paramos para pensar avaliando certos comportamentos, podemos mergulhar em profundo desconforto com a frustração que nos invade. Frustram-se aqueles de boa índole que acreditaram alimentando esperanças de que certos homens podem representar a libertação e a independência de um povo. Em muitos casos, surpresa não é para quem carrega iluminação para discernir e farejar mentiras apregoadas por quem sabidamente nunca esteve qualificado, seja pelo passado ou pelo registro de feitos no trabalho e na sociedade a endossar seus valores.
As transformações se operam de maneira tão evidente e célere em certas lideranças políticas capazes de hipnotizar multidões com seus embustes tramados ao gosto do povo.


Na década de 1950 não atuava agressivamente a categoria hoje em moda, respeitada e exigida do marqueteiro, quando um polêmico homem de cultura andou pelas ruas de São Paulo, mostrando-se caspento com recursos da farinha de mandioca em seus cabelos caindo sobre o paletó escuro. Comoveu as massas, foi prefeito, governador e presidente até explodir-se em calculada triste espetaculosa renúncia. O tresloucado ator amarrou as pernas do Brasil por longos anos em detrimento de sua gente.


Logo a seguir surgiu nas ruas em concentrações de trabalhadores encimando pequeno caixão ou tamborete o falso Messias, com aspirações gigantescas, ao tempo não confessadas. Longos cabelos sem cortar, barba em remoinho sem trato e banho por tomar, construía frases ao agrado de seus iguais: mentia.


Custeado por trabalhadores embevecidos e esperançosos com suas milongas, resoluto marchou buscando através do voto o emprego almejado. Depois de vários embates foi alojado pelo voto no Congresso, sem coragem de buscar a reeleição: seguiu mentindo. Repetidas disputas sem vitória levaram-no finalmente à consecução de seu idealismo, o supremo poder. De tanto repetir mentiras, algumas passaram a parecer verdades.


Marqueteiros atuaram com sabedoria, mudaram-lhe roupas, barba e cabelos, postura retificada dá-lhe até certo garbo. Não conseguiram, no entanto, mudar-lhe o discurso, as ironias, a falta de mensura na fala e o espírito do ditador.


Por ordens do rei os técnicos trabalham agora na transformação da pretensa sucessora, sua indicação irremovível. Perfil e fisionomia de boneca, doce como anjo, longe da imagem de um sargento de guerrilha. “É assim que o povo gosta; é assim que o povo quer”.


Enquanto o tempo passa, aprova-se mais: se alguém roubou, aloprados. Se alguém matou, não vi. Mensalão, nunca existiu. Inaugurações de habitações inacabadas, bom pras famílias que podem dar acabamento a seu gosto, cor do azulejo, do piso a liberdade de escolha. US$ 13 milhões dos Sarney na Suíça entraram na sua biografia. Temos no poder um santo consagrado pela opinião popular. Sentindo-se injustiçado pela imprensa, que desfecho o Santo prepara para o povo desta vez?

 

Garcia Netto
Jornalista

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