O atual modo de viver dos adultos não tem sido nada bom para o mundo infantil. Esse fato chega a ir contra a visão de vários poetas e prosadores. Pelo menos na ficção, a infância sempre foi tida como uma época sem preocupação, em que tudo é possível através da imaginação. Nessa fase, não há necessidade de se saber de nada da vida. Vícios ou perigos ficam longe das crianças devido à proteção constante da mãe ou esporádica do pai.
Não faz tanto tempo, as casas tinham quintais. A mãe trabalhava somente em casa. Não havia a babá televisão. A vida da criança era muito mais ativa. Correr e brincar ao ar livre eram atividades corriqueiras. Nem se pensava na obesidade infantil. Além de movimentação intermitente, o tipo de alimentação favorecia a manutenção do corpo dentro dos parâmetros saudáveis.
Primeiro, a criança perdeu o quintal. Para compensar a perda, ganhou a companhia da programação televisiva. Depois, a mãe foi trabalhar fora de casa. Aí não teve jeito. Ou veio uma pessoa estranha para cuidar da prole ou então a gurizada foi parar na escola maternal, eufemismo chique para creche, que um dia também foi chamada de orfanato diurno.
Na atual conjuntura, o fato de a mulher trabalhar fora de casa tornou-se irreversível. Mas é muito triste ver um bebê ir todos os dias para uma dessas atuais ‘escolinhas’ providas de berçário. Uma criança com menos de dois anos requer a presença da mãe ou do pai a todo o momento. Carinho estranho nenhum (se houver!) vai suprir o oferecido pelos progenitores.
Hoje, a rigidez de horários chega muito cedo para uma criança. Se escapa de ir para o maternal antes dos dois anos de idade, acaba indo à ‘escolinha’ antes dos três. Às vezes, até sem necessidade, quando a mãe não exerce uma atividade externa. Desculpas não faltam para a matrícula. A principal delas seria a de proporcionar socialização por meio de brincadeiras...
Posteriormente, por volta dos seis anos, quando tem início o ensino fundamental em caráter oficial, a criança já está cansada das rotinas pseudoescolares. Com isso, não consegue separar os momentos lúdicos anteriores dos agora realmente dedicados ao estudo. Tudo vira uma mistura só, na maior parte das vezes, incentivada pela pedagogia moderna. Assim se chega à adolescência, sem as responsabilidades inerentes à idade.
De outra parte, muitas crianças hoje em dia já não contam com o pai, em sentido algum. A responsabilidade pela criação fica somente a cargo da mãe. Esta precisa se desdobrar para dar conta da educação e de tudo mais. Apesar de todo esforço materno, fica uma lacuna na mente infantil. Não importa a idade, o filho ou filha gosta mesmo é da vida familiar, com pai e mãe por perto.
De resto, por mais que os filhos reclamem, um dia vão sentir a falta de limites. Cedo ou tarde, a criança que faz tudo o que quer vai sentir na pele o amargor de ter podido fazer o que quis.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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