A Apae é uma das instituições mais queridas e respeitadas de Franca. Com 40 anos de história, mais de 180 funcionários e atendimento a mil usuários de Franca e região, se notabilizou pelo atendimento a crianças, jovens e adultos com deficiência mental e/ou síndrome de Down. Na entidade, eles estudam, participam de cursos profissionalizantes, sessões de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, ecoterapia, hidrotera pia e atividades esportivas e recebem atendimento médico e odontológico. Além de todo esse trabalho, a Apae realiza um outro, paralelo, que também propicia mudanças profundas na vida de cada um de seus frequentadores. É o trabalho de inclusão social e encaminhamento do usuário para o mercado de trabalho. Para dar continuidade a essas realizações, a Apae de Franca pretende mobilizar toda a comunidade em prol de sua causa e, para tanto, promoverá no dia 24 de abril o 1º Leilão “União de Forças”. Lideranças da cidade estão empenhadas na arrecadação de prendas para serem leiloadas e toda renda arrecadada será revertida para a instituição. Para o leitor conhecer um pouco mais do trabalho da Apae, a partir de hoje e pelos próximos domingos, até o dia do Leilão, o Comércio trará diferentes e comoventes histórias de pessoas que tiveram suas vidas transformadas pela Apae. Gente como o jovem José Carlos de Campos, que apresentamos hoje.
José Carlos é o caçula de três filhos. Na terceira gravidez, Aparecida dos Santos Ribeiro, a dona Cida, sua mãe, lutou muito para não perder o filho. Com problemas de pressão e sangramentos, teve de fazer repouso absoluto do terceiro ao oitavo mês. José Carlos nasceu prematuro, com 26 centímetros e dois quilos. Dona Cida morava em Capetinga e precisou viajar até o hospital de Cássia após a bolsa estourar. Ela perdeu todo líquido amniótico e foi preciso uma cesárea de emergência para salvar seu filho. José Carlos teve sequelas. Nasceu com problemas no cérebro que o impedem de aprender no mesmo ritmo de outras crianças.
A luta de dona Cida durante a gravidez foi apenas uma das batalhas que travou pela vida do filho. Depois de vê-lo andar e falar nos primeiros anos de vida, decidiu matriculá-lo na escola para aprender a ler e escrever. Quando José Carlos tinha 6 anos começou a frequentar o pré.
Mãe e filho não tiveram a mesma facilidade quando ele passou à primeira série. No bairro onde residem, Jardim Redentor, as portas se fecharam. “Tinha vaga, mas não me deram. Quando viam a foto dele, por causa do pescoço torto, as professoras falavam que não aceitavam alunos com problemas”, lembra a mãe. A única opção foi matricular José Carlos numa escola pública do City Petrópolis, distante quatro quilômetros do Redentor.
Dona Cida interrompia o serviço todos os dias para, de ônibus, levar e buscar o filho. Dois anos depois de enfrentar essa rotina, tentou novamente vagas numa escola mais próxima de sua casa, mas não conseguiu. “Fui em duas escolas, mas falaram que ele não conseguiria acompanhar. Numa das escolas, fiquei três dias pedindo para aceitarem meu filho. Saía chorando. Não me deram oportunidade de explicar que era comportado, inteligente e capaz e só precisava de uma oportunidade”.
Foi depois de ouvir sucessivos nãos que dona Cida foi acolhida pela Apae. O contato com a entidade transformou as vidas dela e de José Carlos. “Um dia saí da escola chorando e fui andando sem rumo. Por um acaso parei na Apae. Estavam de férias, mas a Maria José (assistente social), me encontrou. Eu estava desesperada e ela me ajudou”. A assistente social a encaminhou para a delegacia de ensino e, depois de relatar suas dificuldades, a mãe conseguiu matricular o filho numa escola estadual. “A Maria José disse para não ficar nervosa porque ela e a Apae estavam comigo. Depois disso, criei uma força dentro de mim e coragem para lutar”.
Além de intermediar a inserção de José Carlos na rede regular de ensino, a Apae abriu as portas para oferecer outros atendimentos ao menino. Pela manhã, frequentava a escola estadual e à tarde tinha aulas de reforço na Apae. A partir dos 8 anos, passou a estudar apenas na Apae, onde concluiu, anos depois, a 4ª série. Aprendeu a ler e a escrever com a tia Sônia, por quem tem muita consideração. “Quando entrou na Apae, José Carlos estava depressivo. Na escola, os amigos zombavam dele, mas foi se desenvolvendo”, disse a assistente social Maria José Almeida.
José Carlos frequentou a entidade diariamente até completar 15 anos. Além das aulas, teve a chance de aprender informática, fazer artesanatos, praticar esportes e conquistar algo muito inesperado para ele e sua família: um emprego. Aos 21 anos, José Carlos comemora os cinco anos de trabalho no Hospital Regional, onde é auxiliar de almoxarifado. Antes trabalhou por um ano na Cetesb, no arquivamento de processos.
A conquista do tão sonhado emprego foi possível graças ao intermédio da Apae junto às empresas. Hoje a instituição tem inseridos no mercado mais de 30 alunos. Na Apae, eles recebem orientações para terem um bom desempenho. No bloco profissionalizante, fazem oficinas e têm aulas sobre assiduidade no trabalho, responsabilidade e até auxílio para conquistarem a independência no transporte da casa até o emprego. José Carlos circula de ônibus de sua casa até o Hospital Regional.
Trabalha das 7 às 17 horas. Com o salário, gosta de renovar o guarda-roupa. “É bom trabalhar. Já conquistei um tanto de coisa. Comprei uma bicicleta e roupas porque sou vaidoso”. Agora o jovem quer alçar novos voos. “Meu maior sonho é estar numa empresa grande trabalhando como vendedor”.
Para a mãe, a trajetória surpreendente vivida pelo filho caçula é motivo de orgulho. Os olhos dela se enchem de lágrimas quando fala do que enfrentou para ver José Carlos alfabetizado. “As pessoas falavam que meu filho não conseguiria estudar. Hoje vejo a benção que Deus me deu. Agradeço por ter me mudado para Franca e por ter colocado a Apae e a Maria José na minha vida”. Dona Cida sempre acreditou no potencial do filho. “Um dia fiquei arrasada porque a professora me disse que estava perdendo meu tempo de ficar levando meu filho na escola porque ele não ia aprender nunca. Falei que um dia ia mostrar a ela que ele é capaz”.
O jovem ainda é acompanhado pela Apae. Não frequenta a entidade todo dia como anos atrás, mas tem na instituição atendimentos médico, psicológico e odontológico. “Aprendi bastante coisa na Apae. A minha maior paixão era jogar futebol, basquete e atletismo”.
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