Padre Afonso Dé, 74, que estava fora de Franca há 12 dias, retornou a Franca na noite de quinta-feira e, ontem, às 14 horas, fez um pronunciamento à imprensa, sobre as acusações de ter abusado de meninos entre 12 e 16 anos de idade. Durante os 45 minutos em que falou, parecia confortável e descontraído, sorrindo e fazendo brincadeiras. "Quem senta na ponta, paga a conta", disse ele, assim que se acomodou à mesa do escritório de seu advogado, no Centro de Franca, local onde atendeu os repórteres.
Parte da tranquilidade do religioso se explica em função da estratégia de blindagem que adotou sua defesa jurídica. O advogado do religioso, Eduardo Caleiro, alertou que o padre apenas leria sua declaração e que não responderia a nenhuma pergunta. Diante dos protestos dos jornalistas, respondeu que ele seria retirado da sala se alguma pergunta relacionada às acusações fosse feita. Nenhuma palavra sobre as crianças, sobre as denúncias ou sobre a investigação da qual é alvo.
Sentado, padre Dé leu sem poder ser interrompido a nota que também foi distribuída aos presentes em duas páginas grampeadas. Em dez parágrafos, manifestou a "profunda tristeza com as denúncias a que venho sendo vitimado" e que "as acusações a mim impostas são seríssimas" e que tem "o maior interesse na apuração criteriosa e responsável por meio dos órgãos competentes". Padre Dé esclareceu que se limitaria a dizer que “minha maior defesa é a minha história de vida e sacerdócio, e as inúmeras obras e pessoas que, com a graça de Deus, realizei e influenciei positivamente". Ainda lendo a nota, o padre disse que desconhecia as razões das denúncias feitas pelos meninos e "até mesmo se tais situações realmente partiram da iniciativa própria dessas crianças e jovens" e afirmou sua "total inocência".
Em outro parágrafo, o sacerdote disse que jamais foi libidinoso ou malicioso em quaisquer de suas atitudes e “a todos abraço e afago como se meus filhos fossem”. Disse ainda que "dezenas residiram comigo" e que "desses filhos, 20 são bons sacerdotes". Pediu a todos paciência e apoio, "pois aguardo com a esperança cristã o pronunciamento da nossa Justiça e, após, o pronunciamento da Igreja". Finalizou a leitura abençoando a todos e agradecendo "pelos inúmeros telefonemas e mensagens de apoio".
Na seqüencia, os repórteres receberam cópias do documento e foram autorizados a fazer perguntas, mas apenas sobre a vida pessoal do religioso, nada sobre as investigações. Sorrindo o tempo todo, padre Dé fez questão de frisar que é bem relacionado e que “pessoas de posse” o tem apoiado. Narrou parte de sua história, lembrando desde a época em que entrou no seminário aos 23 anos na Diocese de Apucarana (PR) até os dias atuais. Durante a narrativa, se emocionou ao comentar que no dia que foi embora "para virar padre", sua mãe, que desaprovava a atitude, tomou veneno. Nesse momento, com os olhos marejados, não concluiu sua fala.
Formado em Humanidades e Missiologia, padre Dé disse ter estudado sete anos na Europa. Segundo ele, veio para a região à convite do bispo Dom Romeu Alberti, que fora transferido de Apucarana para a Arquidiocese de Ribeirão Preto. Na Diocese de Franca, ele disse atuar desde 1990. Em conversa com o bispo da cidade na época, Dom Diógenes Silva Matthes, foi aceito e designado padre de Rifaina, onde atuou por cinco anos.
Missionário, o padre disse que já passou por 70 cidades brasileiras e tem dez filhos registrado em seu nome, sendo três mulheres e sete homens, um deles falecido. Quatro deles, segundo o padre, moram em Franca. Além desses dez, outros sete teriam sido criados pelo sacerdote como "filhos vocacionados". Entre eles está o padre Idair Perina, pároco da Igreja de São Vicente de Paulo, a mesma na qual padre Dé é vigário.
Passados os 45 minutos, o advogado sinalizou para o fim da conversa e, com o mesmo espírito de descontração, padre Dé encerrou o encontro desejando feliz Páscoa a todos.
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