Mandioca era o apelido dado a uma senhora de bastante idade que parecia uma personagem de Fellini. Tudo nela excedia: o batom, o rouge (não existia blush), o pó de arroz, a sombra, o rímel, o perfume, os
enfeites, adereços em geral.
Quando minha irmã e eu abusávamos do bom-senso – na maquiagem, no volume do cabelo ou no colorido das roupas – minha mãe perguntava, em tom de advertência, quando nos via prestes a sair: “onde as Mandiocas vão?” Ao sermos chamadas assim, sentíamos ter exagerado. E estávamos exageradas. Excessivamente exageradas. Era melhor voltar, lavar a cara e começar outra vez a produção.
Mandioca era o apelido dado a uma senhora de bastante idade que parecia uma personagem de Fellini. Tudo nela excedia: o batom, o rouge (não existia blush), o pó de arroz, a sombra, o rímel, o perfume, os enfeites, adereços em geral. Seus cabelos estavam sempre arrumados de forma a apresentar um volume alto... demais da conta. Não bastava uma presilha: ela punha flor, redinha no coque, tiara, enchia o penteado de passadores. Olhar para ela nos fazia pensar numa arara. Usava ao mesmo tempo vestido, xale, sapatos que pouco a ver tinham entre si, bolsa bordada enfeitada com fitas e punha colares e colares, pulseiras e pulseiras, anéis e anéis... Ser chamada de mandioca me fazia sentir um ódio mortal, embora soubesse que a crítica materna era, na maioria das vezes, procedente e justa. Acho que sua missão era conter nossos ímpetos de juventude porque, pensando bem, passada a fase dos excessos, nunca mais a vi. No entanto sei que não era fantasia da família: atualmente observando escritórios, portas de escola quando as mães vão deixar os filhos, corredores dos shoppings, estabelecimentos comerciais – percebo que deixou sementes e seguidoras, arriscaria a dizer, no mundo inteiro... Vejo-a ressuscitada na figura de mulheres que carregam o estandarte do exagero.
Indícios: saias muito curtas e justas; vestidos praianos decotados e estampados para atendimento ao público; maquiagem estilo “over” – base demais, batom demais, sombra demais, rímel demais, blush demais, perfume demais...
Acho moda um assunto e tanto, fascinante, instigante, polêmico. Forma de expressão humana, para entendê-la é imprescindível o auxílio das Ciências Sociais – especialmente da Antropologia, da Sociologia, da Psicologia. Embora interessada, confesso não entender muito e, ainda que tome cuidado, reconheço que com frequência cometo excessos e impropriedades no setor... A guisa de pedir desculpas, informo não estar patrulhando, mas convenhamos: há que se ter cuidado com o vestir, o que vestir, quando vestir e observar classificação cronológica para a escolha do que usar, não é não? À semelhança de faixa de pedestre, faixa de idade em termos de moda devia ser respeitada – por homens e mulheres. Quer ver só? A fórmula sutiã de oncinha de bojo feito taça levantando os seios, mais alças aparecendo sob a blusa “customizada” (cheia de interferências da tesoura); mais skinny agarradíssima ou short jeans curto e apertado ou minissaia curtinha; mais sapatos ankle boots ou peeptoes; mais cabelos à moda de quem-enfiou-o-dedo-na-tomada, é reservada com exclusividade para as muito jovens e privilegiadas, pois estilo de roupas para baladas. Fora esse específico uso, servirá para compor a caricatura de mulher e inspirar a composição do guarda-roupa das moças do “Big Brother”. Jamais servirá para ilustrar a imagem do absoluto bom gosto: se em poucas fica “engraçadinho”, na maioria, um horror...
Está fora de moda criticar o que as pessoas usam ou deixam de usar? Está. Há assuntos mais merecedores de atenção? Há. Estou implicando com a vida alheia? Estou. Isso é bonito? Não, não é. É problema meu? Não, também não. Então, porque boto o nariz onde não fui chamada? Porque estou ficando implicante, ora essa! Privilégio da idade...
Bath
Cidade ao sudoeste da Inglaterra – viagem de hora e meia por trem de Londres – tem, entre outras atrações, o Museum of Costume onde se pode visitar a exibição permanente de peças assinadas por costureiros famosos, além de acompanhar a trajetória do que vem sendo a moda ao longo de séculos. Fica nos compartimentos de base de um prédio chamado Assembly Rooms. Em seus livros, Jane Austen faz referências ao prédio e seu significado. Nestes tempos virtuais modernos, pode-se saber mais – dele e de moda – sem sair de casa.
Implicância
Tenho minhas birras no setor de moda. A maior delas: sapatos plataforma, daqueles altíssimos, que aumentam a estatura mas comprometem a elegância. Olhando qualquer mulher andar sobre aquela monstruosidade, fico em dúvida se ela tenta caminhar ou evitar que lhe caia perna abaixo o resultado de uma súbita e inesperada descarga intestinal. Piora, quando a pista é irregular. Fica horrível quando tenta correr...
Ver e enxergar
Corria o tempo dos desfiados para aumentar o volume do penteado. Uma amiga alertada por outra de que seu cabelo não estava lá uma maravilha na parte da trás da cabeça, deu boa risada e argumentou: “Não me importo! Eu não enxergo atrás. Se estou satisfeita com o que vejo, o que não enxergo fica sem importância!”. Foi quando aprendi a perceber diferença entre ver e enxergar...
Auto-estima
Iam sair, quando uma deu pela falta da outra. Abriu a porta, viu a companheira se olhando no espelho do hall, dizendo a si mesma: “Linda! Gostosa! Maravilhosa! Perfeita!”. À surpresa amiga, a outra explicou com ar de doutora no assunto: “Filha, se eu não me achar assim, como vou convencer o próximo?” Adoro lembrar a cena...
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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