De família católica, um adolescente francano, de 16 anos, costuma dizer que "nasceu no altar". O desejo de se tornar padre aflorou ainda na infância, aos 5 anos de idade. Em fevereiro último, foi acolhido no reduto íntimo de padre José Afonso Dé, 74. Imaginou que começaria, enfim, a percorrer o caminho que o levaria à sonhada ordenação sacerdotal. Ledo engano. Embarcava num verdadeiro pesadelo. O jovem afirma que foi beijado na boca, à força, pelo padre Dé.
Com a promessa de conseguir ingressar no seminário, o adolescente deixou a casa em que morava com os pais e o irmão caçula e aceitou o convite de padre Dé para morar na residência dele, no Jardim Tropical. Ele conhecia o sacerdote dos trabalhos na Igreja São Vicente de Paulo. O religioso lhe prometera apoio para entrar no seminário. O garoto se mudou em fevereiro para a casa dele, onde permaneceu por três semanas. Estudava e trabalhava numa loja. Nos horários de folga da escola e do trabalho, assumia obrigações na residência. "Eu era uma dona de casa, uma empregada, digamos assim. Tinha que fazer tudo na casa. Na minha casa (dos pais), nunca lavei roupas, nunca fiz comida, nunca fiz nada disso. Mas lá, lavava minhas roupas, limpava a casa, lavava banheiros e quintal. Eu era quase uma babá dele (padre)". O jovem dividia a residência com o padre Dé e outras três pessoas.
O menino abandonou o reduto do padre três dias depois de um episódio que o deixou abalado: "Ele me beijou", disse o jovem, se referindo ao padre Dé. O adolescente não se lembra da data exata do episódio, apenas que ocorreu em meados de fevereiro, uma vez. Disse que os dois estavam sozinhos na residência, na cozinha, quando foi agarrado e beijado. "Ele começou dando um selinho e depois de selinhos contínuos, ele pôs a língua. Eu travei os dentes, porém, não sei se por distração minha ou não, ele conseguiu por a língua dentro da minha boca", relembra.
A chegada do filho adotivo do padre impediu que o beijo continuasse. "Ele ouviu o barulho e os passos do filho dele entrando na casa e parou de me beijar. Não tive reação. Fiquei parado, olhando uma parede branca que tinha na minha frente. Até hoje não sei explicar bem o que senti". O jovem diz que teve vontade de reagir, mas ficou paralisado. "Na hora tive uma vontade doida de dar um tapa na cara dele, mas ele é mais velho e se pegasse ele para bater, ia matá-lo".
O adolescente preferiu o silêncio. Não questionou o padre nem contou o fato aos familiares por medo de ter o sonho de ser padre destruído. Imaginava o repúdio que a mãe sentiria do padre que prometera abrir as portas para que se tornasse seminarista. "Senti vergonha e tive medo de uma reação negativa da minha mãe, de ir lá e brigar com o padre Dé. Acho que qualquer mãe reagiria com revolta".
Guardou o fato consigo por cerca de um mês. Só decidiu revelar a história aos pais na semana passada porque o padre Dé havia deixado a cidade rumo a Canápolis, em Minas Gerais, a 320 quilômetros de Franca. A distância de Franca impediria confrontos entre o religioso e a mãe. "Ela ficou magoada até porque é uma pessoa de muita fé. A mãe põe um filho no mundo para criar e aí chega um cidadão e vai abusar do seu filho. Está errado".
Depois do ataque, o menino permaneceu na casa de padre Dé por mais três dias. Acabou desistindo de morar com o sacerdote e regressou ao convívio com os pais. "Arrumei minhas malas e voltei para minha família que é de onde eu nunca deveria ter saído".
De fé inabalável, o menino preserva o desejo de ser padre. "Momentaneamente, o meu sonho foi destruído depois que tudo aconteceu, só que percebi que estou dentro da igreja não pelos homens, mas sim por Deus". O sentimento em relação ao padre é de piedade. "Que Deus tenha dó dele porque ele precisa de muita compaixão. Desde quando a pessoa é ordenada tem de se dar o respeito e ele não se dá esse respeito". Intimado, prestou depoimento sobre o caso ontem na DDM.
Católico, o pai do adolescente, de 46 anos, ficou revoltado com a história. "Moleque com uma pessoa idosa já é complicado e ele por ser um padre devia se pôr na posição e respeitar a família dos outros. Quando soube, a vontade era de esganar ele mesmo".
O relato deste jovem de 16 anos não é isolado. A reportagem do GCN Comunicação teve contato com outros cinco meninos que afirmam terem sido vítimas de assédio e bolinação praticados pelo padre Dé. Um menino de 14 anos disse que o padre "passava a mão" nele e nos amigos quando os cumprimentava ou estavam sentados à mesa para tomar café, às tardes de quintas-feiras, dia em que se reuniam na casa do padre após missa celebrada na Igreja São Vicente. "Ele inventou uma brincadeira que chamava 'pirulito'. Ele chegava na gente e pegava, apertava nosso órgão genital".
O outro garoto que concedeu entrevista ao GCN ontem tem apenas 12 anos e confirmou a história. "Teve um certo dia que (o padre) chamou para tomar coca, comer pipoca, essas coisas. Daí nóis foi (sic). Ele passou de novo (as mãos nas partes íntimas)". A criança disse que não relatou os abusos à mãe por vergonha. O garoto também foi intimado a depor na delegacia.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.