Já há algum tempo nutria a vontade pessoal de ler estudando (e não apenas lendo), a mensagem de Jesus Cristo segundo Tomé. Foram escritos encontrados por lavradores em 1945, que escavaram um velho cemitério de Nag Hammadi, no Egito. Alguns dos escritos infelizmente foram queimados pelos colonos. Parte, porém (felizmente!), foi vendida ao Museu Copta do Cairo. Mais tarde a parte preservada dos papiros encontrados foi examinada por peritos, que constataram que esses manuscritos continham o Evangelho do Apostolo Tomé, isto é, cópias do original que remontam o século II da era Cristã.
Sabidamente, Tomé é quase totalmente ignorado pelos quatro evangelhos conhecidos. Pelo que se sabe, após a ascensão de Jesus, Tomé teria demandado ao Oriente. O cristianismo refere-se a Tomé quase que exclusivamente na conhecida passagem em que ele teria exigido uma prova empírica da ressurreição física de Jesus. Do episódio nasceu a conhecida expressão “ver para crer”, que sintetiza uma idéia de incredulidade.
Recentemente, para minha alegria, fui presenteado pelo amigo Roberto Zanin, com um exemplar da obra O Quinto Evangelho - A Mensagem do Cristo segundo Tomé, 5ª. Edição, Editora Alvorada, com tradução e notas do já falecido filósofo e teólogo Humberto Hohden.
O Evangelho de Tomé muito embora não seja reconhecido pelo catolicismo, é composto por 114 misteriosos textos. Segundo o tradutor e organizador das notas Humberto Rohden, no evangelho de Tomé “não aparece o menor indício de uma hierarquia eclesiástica nem hegemonia clerical. O cristianismo primevo era uma fraternidade espiritual, uma espécie de democracia crística, e não uma monocracia hierárquica”.
O escrito de Tomé em face do seu forte conteúdo filosófico e teológico não é, efetivamente, de fácil entendimento e comporta explicações várias. No quinto Evangelho uma das mensagens que merece destaque é aquela onde ele deixa claro que “quem descobrir o sentido das palavras de Jesus não provará a morte”. Neste caso, obviamente, a palavra morte não é usada em seu sentido puramente físico, mas, também e principalmente metafísico.
Não obstante, em algumas passagens, a palavra morte já ganha dois sentidos, físico e metafísico, como na passagem do discípulo que queria sepultar seu pai antes de atender ao convite de Jesus.
Nesse caso o mestre Galileu usa a expressão “morte” nos seus dois sentidos: “deixa os (espiritualmente) mortos sepultar os seus (fisicamente) mortos”. Da mesma forma, quando se afirma que “Cristo julgará os vivos e os mortos”, ou seja, os vivos e os mortos sob o ponto de vista físico e também e principalmente espiritual.
Em síntese, como bem pondera Rohden “O evangelho de Tomé merece ser lido e estudado pela elite espiritual da cristandade do nosso tempo”, que certamente descobrirá uma extraordinária mensagem de Jesus, a de que a redenção passa, fundamentalmente, pela consciência da paternidade única de Deus, mas, também e principalmente, pela vivência da fraternidade universal dos homens. Portanto, a meu ver, os escritos de Tomé são complexos, mas, a mensagem que deve ficar em nós é extremamente simples: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca
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