Um fato político latino-americano extremamente importante (de curto e médio prazo) pode estar sendo esboçado com a criação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Esse novo bloco poderia ser considerado como mais um, dentre os vários já existente não fosse a realidade do atual momento político e econômico das Américas.
A insistência dos EUA em não nos enxergar como região importante e de rápido crescimento e sua persistência em manter sua política arcaica e conservadora de ‘xerife’ e de mantenedor da paz(?) mundial, aliado à crise de ineficiência e de credibilidade da OEA (Organização dos Estados Americanos), seja em episódios mais recentes como o de Honduras e do Haiti, seja em mais antigos, como o expurgo de Cuba exercido por pressão dos Estados Unidos; levaram à criação desse bloco, inclusive, sem a participação dos 2 grandes do norte (Estados Unidos e Canadá).
É cedo, ainda, para projetarmos seu sucesso e quais os resultados efetivos que essa nova configuração geopolítica nas Américas poderá trazer, mas, uma coisa é certa, estamos dando um importante passo para desvincular a América Latina da histórica dependência e de alinhamento automático com os EUA.
A globalização e a interdependência econômica não abrem mais espaço para alinhamentos automáticos sem que os interesses específicos de cada país ou região, sejam atendidos.
Além disso, o ritmo de desenvolvimento de parte da América Latina destoa da economia americana atual e do que efetivamente tem acontecido no mundo, principalmente com o surgimento, em processo de consolidação, de novas potências econômicas mundiais, como a China, a Índia e o próprio Brasil.
Dados e fatos indicam que, nos próximos anos, os Estados Unidos deixarão de ser ‘a’ potência econômica hegemônica no mundo, portanto, nada mais correto do que buscarmos alternativas geopolíticas que garantam um espaço vantajoso e de liderança para o Brasil.
Muito teremos que fazer na efetivação desse novo instrumento estratégico latino. O Brasil, certamente, tem seus desafios e incógnitas internas.
Esse ano acontece a eleição presidencial que possibilitará o debate de duas visões diferentes de estratégia internacional.
A do PT, que busca consolidar o espaço de projeção e liderança que o Governo Lula conquistou para o Brasil, no cenário internacional e, a do PSDB, historicamente mais acanhada e que prefere o esforço mínimo, alinhando o País a interesses norte-americanos. Esse é o legado que o governo FHC deixou ao governo Lula.
A postura dos dois principais candidatos à Presidência deixa isso muito evidente. A candidata Dilma, do PT, tem uma visão estadista maior. Entende a importância do Estado (governo forte, articulado e com ações estratégicas) no desenvolvimento da nação e que garanta um posicionamento forte do Brasil em defesa dos seus interesses no cenário global e o candidato Serra, que reflete a concepção dos tucanos, de Estado mínimo e a crença de que a iniciativa privada pode representar os interesses(?) brasileiros no cenário internacional. Enfim, esse pode ser um importante momento latino-americano.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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