A luta para manter um sonho


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<b/>MÚSICA QUE TRANSFORMA </b>- Otávio Fontes melhorou até a nota na escola depois que passou a frenquentar as aulas de música
<b/>MÚSICA QUE TRANSFORMA </b>- Otávio Fontes melhorou até a nota na escola depois que passou a frenquentar as aulas de música
Aos 97 anos, Heitor Combat quase não sai de casa. Com a saúde já debilitada, tem dificuldade para falar e andar. Ele sempre aguarda com ansiedade pelas manhãs de domingo. É quando ele recebe a visita dos garotos que fazem parte de um sonho que começou a ganhar forma em 1972, quando fundou o Coral dos Pequenos Cantores de Cássia (MG). A escola atualmente é conhecida como Centro Musical “Heitor Combat” e atende a 120 meninos com idades entre 8 e 18 anos. Todos os domingos, após a missa das 9 horas, esses garotos visitam o mestre para quem eles cantam e dão beijos carinhosos. A música, que encanta tanto o velho professor nas manhãs de domingo, tem transformado a vida destes garotos. Entre eles está Otávio Fontes Rodrigues, 12. Garoto de sorriso tímido que não se envergonha do chinelo de borracha que usa para ir para à escolinha de música todos os dias. Ele acorda às 7h30 e anda 25 minutos para se juntar a 46 meninos que frequentam as aulas de coral do professor Humberto Patrik França. Otávio entrou na escola aos 8 anos encantado com os relatos do irmão que na época estudava no Centro Musical. “Comecei tocando flauta, mas queria mesmo era cantar no coral. Dei meu nome e fiquei esperando até me chamarem. Foi um dia muito feliz quando me disseram que eu poderia finalmente entrar para o coral”. Os olhos de Otávio brilham quando ele fala da música. “O corinho transformou minha vida. Antes eu queria só ficar na rua, agora só quero estar no Centro Musical. Melhorei até minha nota na escola. A minha professora nem chama mais a minha mãe para falar de mim”, brinca. A mãe de Otávio, Eliane Cristina Fontes, 34, se diz impressionada com a dedicação do filho. “Quando ele falou que queria entrar para o Centro Musical achei que não passaria de uma semana. A música mudou o jeito dele. Ele está mais sossegado em casa e melhorou na escola. Ele vivia brigando com os irmãos e me dava más respostas. Hoje passou a ser uma criança amorosa”. A mesma paixão pela música tem os amigos Luís Otávio Mendes, 14, e Ricardo Souza Júnior, 13, que tocam clarinete. Eles não sabem como será o futuro, mas não pensam em deixar o Centro Musical de jeito nenhum. “Quando entrei na escola eu era muito nervoso. Hoje não falto nenhum dia”, afirma Ricardo. A maioria dos meninos que se matricula na escolinha de música só deixa a instituição ao completar 18 anos. Com isso, a fila de espera cresce a cada ano. O diretor do Centro Musical Heitor Combat, Messias Donizete Faleiros, bem que queria atender mais crianças, mas não é possível. Ele acredita que desde que a escola foi fundada, mais de 800 meninos tenham passado por lá. “Sei que alguns deles seguiram na música ou estão fazendo faculdade ou cursos para se aperfeiçoar. Mas mesmo aqueles que não continuaram, se tornaram pessoas de bom caráter. A música é capaz de fazer essas transformações”. O próprio Messias Faleiros é prova desta mudança. Aos 10 anos conheceu Combat, quando cantava no coral da igreja. O professor viu que o menino tinha talento, mas precisava de uma “ajudinha”. “Ele me convidou para fazer parte da escola. O Centro Musical me formou moralmente e intelectualmente. Passei a amar o projeto. Aos 14 anos comecei a auxiliar os professores e hoje sou o diretor da instituição. Fiz da música minha profissão”. Tanta admiração pelo velho professor não deixa Messias ficar um dia sem visitá-lo. “Vou todos os dias e ele sempre pergunta pelos meninos. Muitas vezes não aguenta esperar pelos domingos e telefona para mim ansioso para ouvi-los cantar ou tocar só para ele”. <b>PARCEIROS</b> O Centro Musical Heitor Combat tem total apoio financeiro da Prefeitura de Cássia, da Fundação Banco do Brasil e da Fenabb (Federação das AABBs). A escola ganha uniformes, equipamentos, lanches e recursos para as viagens. Os alunos também ganharam o direito de frequentar o clube do Banco do Brasil, mantido naquela cidade, uma vez por semana. [FOTO2] O apoio também foi fundamental na gravação de dois CDs sendo um com canções populares e em louvor à Santa Rita de Cássia e o segundo com Canções Natalinas. A escola, que tem quatro professores, funciona de segunda a sexta-feira, das 9 às 11 horas e das 14 às 17 horas. Além do coral, os meninos aprendem a tocar flauta doce e são preparados para tocar na banda. Tanta dedicação atrai convites para cantar em congressos, missas, casamentos e inaugurações.

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