Paixões à parte


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Um fato novo incomoda cabeças sãs e outras, nem tão, nesta cidade: pessoas vivem como ratos nas lajes de prédio abandonado que se convencionou chamar de “piscinão”, à Avenida Major Nicácio. A "bomba" veio à luz pela coragem com que os repórteres Irinéa Donizete, Dirceu Garcia e Joelma Ospedal (também editora-chefe deste Comércio) enfrentaram a responsabilidade de contar histórias de vida de quem abriu mão da convivência social normal por causa do álcool e da droga. Como as máscaras do Carnaval estão em pleno vigor, escrevo para manter acesa a chama e conservar aquecido o caso. Se você chega agora e ainda não sabe, informe-se lendo as duas matérias referenciais (clique <a target="_blank" href="http://www.comerciodafranca.com.br/materia.php?id=53157">aqui</a> e <a target="_blank" href="http://www.comerciodafranca.com.br/materia.php? id=53209&materia=Vidas%20 descartáveis">aqui</a>) sobre um grupo de seres humanos que vegeta sob lajes do esqueleto de edifício da Avenida Major Nicácio, mesmo local onde, há dois anos, o repórter fotográfico do Comércio, Tiago Brandão, flagrou mãe que se atirou em poço para salvar a vida do filho. As imagens correram o mundo e Tiago ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo Fotográfico. Aliás, a função jornalística é exatamente essa: contar as histórias. Abandonado pela incorporadora e construtora Habitat a partir da inadimplência de condôminos, o terreno não foi adequadamente cercado e tornou-se ponto de concentração de moradores de rua, usuários de drogas e relacionamento sexual. Após o fato da mãe que salvou o filho, registrado por Tiago, a construtora instalou lá um cerca alambrada de pouca eficiência. Um pequeno cômodo existente à frente do esqueleto do prédio tornou-se teto para desfavorecidos mesmo e apesar das incontáveis reclamações de moradores e comerciantes da região, incomodados com os pedidos – e até das ameaças – dos "moradores" por dinheiro e comida. A construtora, acionada, sinalizou com a derrubada do cômodo, o que só aconteceu há poucas semanas. Os problemas principais continuaram. As lajes nuas da obra continuaram agasalhando usuários de drogas e residentes. Seguidas batidas policiais não foram capazes de expulsar os invasores. Assistentes sociais ligadas ao Poder Judiciário e da Secretaria de Promoção Social do município tentaram atrair os residentes a programas sociais, mas não conseguiram. Semana passada, este Comércio resolveu colocar a mão nesta ferida. Era preciso escancarar o problema, dar conhecimento público ao fato. As histórias dos "moradores" do "piscinão" são, a rigor, iguais às de outros que também moram em buracos de áreas públicas. Sabe-se, mas não incomodam tanto. No caso em foco, há diferenças. Trata-se de propriedade particular, localizada em ponto nobre da cidade, vizinha de shopping, Fórum, universidades, comércios. A dependência absoluta que os “residentes” têm da caridade pública faz o resto. Tornaram-se foco da piedade de alguns e de ódio de muitos. Não posso fechar os olhos ao sistema social que criaram. Apesar de morarem em um buraco, têm regras. Um sanduíche ganho por um deve ser repartido com os outros. Os dinheiros, também. Têm até um "tesoureiro". Há velhos e há jovens. O cenário do "dormitório" onde vegetam no meio do lixo e noite adentro, lúcidos ou não, não pode ser "invadido" por ninguém que não seja do grupo, exceção a quem tenha autorização; nenhum pode contar a ninguém o que os outros não aceitem que possa ser contado. Há intensa solidariedade entre eles. Estão lá porque são incompatíveis com regras ditas "normais". Mantêm, na verdade, uma sociedade sem regras que os obriguem a fazer o que não querem. É a utopia do consideram liberdade integral e esse tipo de sociedade perturba. Há quem pregue que não se deve estimular ou ajudar seus membros. Há quem tenha certeza que ajudar quem não produz para o contexto da sociedade como um todo, institucionaliza a preguiça e estimula o ócio. E há quem grite por ações nazistas perturbadoramente desapegadas à vida. Ao pensar nestes é que precisamos tornar nossos olhos e ouvidos atentos, estimular entidades e pessoas a observarem o que ocorre no dia a dia do "piscinão da Major Nicácio", mesmo que solução para o sério problema teime em não aparecer nos estudos da administração pública, nas ações dos órgãos de segurança, nas reuniões eclesiásticas, nas associações dos homens justos. É imprescindível preservar a vida e garantir os direitos fundamentais dos seres humanos, mesmo que seja a vida e os direitos daqueles com quem não concordamos. Os moradores do "piscinão" existem. Não dá para fechar os olhos e fingir que ao abrir, o problema se acaba. Quando nada, os lá residentes propõem reflexão. Propõem que pensemos, até à exaustão, onde está o caminho para resgatar vidas que, premidas pelas mazelas deste mundo louco, desistiram das normas sociais e tentam criar um mundo novo, esquisito, incapaz de proporcionar dignidade à vida. Paixões à parte, você, que me lê, também é parte da solução. Se puder e se quiser, desmascare-se. Saia de sua posição de conforto. Ponha a mão no fogo. Quem sabe está ai, dentro de você, a solução improvável. <b>GENTE E SEUS PENSARES</b> Interessante. Estamos sendo cobrados por divulgar este caso! Tem quem diz que estamos errados “em chamar a atenção da sociedade para aquela gente do piscinão”. Que nosso objetivo é “arrumar auxílio para eles”. Nada disso, gente! O objetivo único é contar as coisas, anunciar o que acontece. E só!!! Não é nosso ofício calar, enfiar a cabeça no chão e sim ampliar e democratizar o conhecimento, universalizar informações. Quando contamos, cumprimos o papel de documentar, incomodar, cobrar soluções. Somos, na maioria das vezes, o último bastião de defesa da verdade. E não existem duas verdades. Parece que é isso que incomoda <b>Luiz Neto</b> <i>Jornalista, editor de Opinião do Comércio</i> luizneto@comerciodafranca.com.br

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