É possível e até provável que muitos tenham tomado conhecimento de fato ocorrido em Santa Catarina e que foi amplamente divulgado na rede internacional de computadores. Trata-se do lamentável episódio em que o professor universitário Rubens Araújo de Oliveira, após ter sido convidado para ser o patrono dos formandos dos cursos de Administração, Jornalismo e Turismo da Universidade Estácio de Sá de Santa Catarina, acabou sendo desconvidado através de simples mensagem eletrônica enviada pela comissão de formandos. O argumento para tal procedimento foi o de que a contribuição financeira dele para a formatura, no importe de R$ 1 mil, foi considerada irrisória pela turma de formandos.
O mais surpreendente reside no fato de que o mencionado professor acabou sendo substituído por outra pessoa que se dispôs a conferir uma contribuição mais generosa. No e-mail encaminhado pela comissão de formatura ao professor Rubens, desconvidando-o, constou expressamente – pasmem –, que a comissão e os formandos entendiam ‘que seria mais justo homenagear a pessoa que se propôs a fazer a maior contribuição para com os formandos’.
O fato por si só revela o caráter mercantilista da turma e a vanitas vanitatis (suprema vaidade) daquele que aceitou, em substituição, a ‘honraria’. O ocorrido, embora lamentável e odioso, felizmente e ao meu sentir, é esporádico. Confesso que nos meus quase 30 anos de vida acadêmica não presenciei, pelo menos explicitamente, escolha de um homenageado pautando-se por critérios econômico-financeiros.
O acontecido, porém, revela a crescente opção das pessoas pelo ter mais do que pelo ser. Evidencia, também, que por mais que as escolas se esforcem, não conseguem mudar os valores de alguns de seus alunos.
A escolha de um homenageado, pautando-se por critérios econômicos, é absurda, pois leva à completa perda no sentido que deve existir em se prestar uma homenagem a personalidade que marcou positivamente a turma de formandos, no decorrer do curso.
Penso como o colega Rubens Oliveira, de Santa Catarina, que a pessoa deve ser homenageada por possuir valores e que preze pela ética, pela moral, pela honra, pelo cumprimento da palavra e por dignificar a profissão, e não apenas porque se disponha a contribuir, generosamente, com a comissão de formatura.
Se a moda pega é bem possível e até provável vivenciarmos, no futuro, a ocorrência de leilões para cargos de patronos, paraninfos e homenageados especiais em formaturas universitárias.
A ética é importantíssima para a convivência social. Desprezar valores éticos e morais é retroceder no tempo, além de ser um lamentável incentivo a se chegar ao sucesso, não se preocupando com os meios utilizados para alcançá-lo. O lamentável fato parece que também se presta a confirmar a tese de Marx, bem lembrada por Demian (A lógica mercantil), de que ‘o capitalismo transforma os mais nobres sentimentos humanos em mercadoria; afoga a nobreza e a ética nas águas geladas dos cálculos egoístas’.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca.
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