Desculpas, pelo inconveniente


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A primeira experiência que tive foi no século passado. Se não me lembro bem do resto, desse particular tenho certeza: foi no Cine Santo Antônio, naquela época um cinema que exibia filmes. Cinemas, embora o nome tenha se mantido como referência de local, na prática viraram Igrejas. Não. Estou me referindo a acontecimentos em priscas eras, de quando Franca tinha quatro cinemas, cada um com suas características. No `centro` o Odeon e São Luiz, os mais importantes, onde estreavam os filmes da semana no domingo; dependendo da importância, no sábado, também. O Avenida, com nome inspirado na sua localização, bem moderno, mas fora do circuito bacana não era prestigiado com ilustres presenças domingueiras, muito menos com avants-prèmieres... Tinha o pequeno Santo Antônio, ainda num prédio de construção bastante antiga. Os dois últimos, coadjuvantes no lazer francano, apresentavam filmes como que em segunda mão: reprisavam durante a semana, as estréias dos cinemas do `centro`. O Santo Antônio era pequeno, bastante desconfortável e, não sei por que cargas d`água, foi escolhido para apresentar um filme especial que não havia sido apresentado anteriormente nos cinemas da cidade. Subitamente virou celebridade, ficou importante. E foi todo mundo do centro para ver, na Estação, o tal filme, em versão 3D! Formou-se fila lá fora. Na entrada nos entregaram um arremedo de óculos de cartolina, com uma `lente` vermelha e outra azul, ambas em celofane. No escuro ninguém reconhecia ninguém porque estávamos todos democraticamente iguais (e esquisitos) com aquela estrutura branca tapando-nos as fisionomias. Todos de boca aberta e extasiados. Claro, alguns tiravam para ver o que acontecia na tela que apresentava imagens tão reais e próximas dos nossos olhos: tinha vulcão soltando fumaça; tinha pedra atirada diretamente sobre nós; o bicho que fugia da jaula... e tome susto! Não lembro de enredo, mas que tinha cenas de dar frio na barriga, ah! tinha. Lembrei-me disso porque recentemente fui ver Avatar, em 3D, num cinema londrino famoso por ter a maior tela da Europa. Bacanérrimo. Natural que antes do filme começar, acomodada em extremamente confortável poltrona forrada de veludo, ambiente climatizado, música suave transmitida em som absolutamente perfeito. eu fizesse a comparação do que aconteceu aos costumes e à tecnologia no meio século que separou as duas apresentações de 3D que eu vi na vida... A começar dos óculos: agora baquelite preto, lentes espelhadas, tipo Oakley, que míopes e astigmáticos puseram por cima dos outros e que não atrapalharam em nada as lágrimas, que desceram provocadas pelo enredo, emoção, saudade e por experimentar fisicamente o progresso tecnológico, até pouco tempo existente apenas em livros de ficção científica. Enquanto eu via as cenas como se estivesse frente a uma janela, os galhos das árvores do filme quase `batiam` no meu rosto e eu podia sentir a `maciez` de diáfanas e delicadas flores quase `pousando` no meu braço. E me surpreendia por, no cotidiano, nem mais relevar as mudanças que hoje nos permitem comunicação com qualquer parte do planeta. As mesmas, que nos transportam em poucas horas, de um lugar para outro no mundo todo. Elas, que nos mantêm conectados a uma imensa rede virtual e ao mesmo tempo tão real. As tais, que poderiam nos induzir à construção de um mundo mais igual e sem fronteiras e que nos fizeram monstros poderosos ainda capazes de guerras e agressões. Mas aconteceu aqui o que não aconteceu no Cine Santo Antônio: alguém se enganou. Esperávamos um e começou a ser apresentado um outro filme, infantil... Tímidos e estupefatos murmúrios em protesto, evasão em massa. De repente todos voltam para seus lugares. A projeção é reiniciada, batem-se palmas e Avatar tem início. Na saída, ganhamos um ingresso extra como desculpas pelo inconveniente e a sensação de que Primeiro Mundo é Primeiro Mundo, mas o ser humano ... é ser humano, independentemente de localização geográfica ou designação: embora com tanta tecnologia à disposição, ele é capaz de erros tolos, de enganos ridículos, de desacertos grotestos. Ainda bem que está aprendendo a pedir desculpas. <b>AINDA, AVATAR</b> O ano onde se desenrola a trama, 2145, que parece distante, é o suficiente para três gerações após a nossa: nossos bisnetos estarão quarentões... Dirigido e produzido por James Cameron, o mesmo do Titanic, configura recorde de bilheteria na sua primeira apresentação. Gênero `ficção científica`, bastante científico mas nem tão ficção assim: manipulação genética, viagens interplanetárias, reconhecimento de possibilidade de existência de outros seres na imensa galáxia... Haja cerveja! <b>IMPRENSA</b> Gutenberg revolucionou o mundo com três engenhos. A partir da prensa usada na produção de vinhos criou (1) a prensa gráfica que utilizava - e reutilizava - tipos móveis em (2) metal e (3) desenvolveu uma tinta à base de óleo. A utilização de caracteres móveis já era praticada por outros povos, como sumérios e chineses, muito antes dele. Em 1455 Gutenberg abriu as cortinas do desenvolvimento ao socializar e democratizar o conhecimento humano oferecendo ao mundo aquela edição da Bíblia Sagrada. <b>CHIP</b> Quinhentos anos após Gutenberg, na década de 50 do século passado, novamente as portas da possibilidade de conhecimento se escancaram: é inventado o minúsculo chip - ou circuito integrado, CI, microcomputador, microchip - usado em quase todos os equipamentos eletrônicos que, popularizados, colocam ao alcance das mãos de todas as pessoas, do mundo inteiro, em tempo real, as informações armazenadas pelo ser humano em sua trajetória pela Terra. <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - <i>luciahelena@comerciodafranca.com.br</i>

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